Brasília-DF,
09/AGO/2020

Crônica da semana: De costas para o lance

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Paulo Pestana Publicação:20/12/2019 06:00Atualização:19/12/2019 21:37
Escrevo antes do jogo do Flamengo com uns árabes; não sei o resultado e nem quero saber, até porque sou ruim de prognóstico — nunca acertei mais que quatro dos 13 jogos da loteca. Futebol não me fascina mais, e a culpa não é apenas do América, que hoje faz figuração numa obscura divisão inferior, mas por causa das novidades.

Ficou tudo tão estranho que até árabes, que antigamente a gente só via ‘no lojinha’ e nos bailes de carnaval, estão disputando títulos mundiais. Prefiro o tempo em que eles apreciavam a dança do ventre.

Entre as novidades, não gosto do tal árbitro de vídeo que impede a beleza de um gol de mão, de um pênalti malandro, que decreta o fim das discussões no botequim, além de parar o jogo a todo instante, como acontece no futebol americano (lá sabemos que as interrupções são causadas pelo comércio de cachorro-quente, coisas do capitalismo).

Juiz de futebol não é magistrado, tem que correr, separar briga, fazer cara de mau, soltar o maior volume de perdigotos possível. Se continuar nessa moleza daqui a pouco até os árbitros de várzea vão querer vaga em tribunal superior, quem sabe até usar peruca empoada.

Mas gosto menos ainda dos tais stewards, tão mal afamados que ainda nem ganharam um apelido em português. Referee virou árbitro, goal keeper virou goleiro, ball boy virou gandula — essa, a tradução mais original, já que Gandulla foi um jogador argentino do Vasco da Gama nos anos 40 e, nunca escalado, buscava as bolas isoladas do campo.

Os stewards podem ser mordomos, ou organizadores de eventos, ou ainda comissários de bordo, mas no futebol são responsáveis pelo anticlímax. Desde que acabaram com a geral, que funcionava como um fosso entre a ignara turba e o gramado, e com os alambrados, onde torcedores se grudavam como moscas em teias de aranha, esses profissionais se transformaram numa barreira invisível.

O anticlímax está na postura deles, de costas para o jogo, olhando a reação dos torcedores, tentando detectar e dedurar os mais exaltados. Futebol não é ópera. O torcedor tem participação ativa num jogo de bola; muitas vezes sua mais que o craque, certamente mais que o cabeça de bagre; é ele quem cria a mística da agremiação e não o jogador, cada vez mais passageiro e volátil.

Fico imaginando a seleção para Stewarts. Tiãozinho Rodrigues, excelente guitarrista, conta que, quando morava em Goiânia, se juntava a uma ruma de meninos para tentar uma vaga de gandula, escolhidos aleatoriamente. Às vezes, tinha que se satisfazer vendendo maçãs do amor. Para Stewart, o teste é diferente.  

O coach — o nome tem que ser em inglês — chega e já vai perguntando: “Você gosta de futebol?” Se a resposta for positiva, o sujeito está fora. Vai que ele tenta levar um espelhinho para ver o jogo de costas...

Ainda bem que não proibiram a chacota. Ainda. Mazim, cruzeirense, orava: “Deus, faça com que meu time se ilumine!”. O Faixa não perdeu tempo: “Rezando errado assim vai ganhar outra lanterna”.

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