Brasília-DF,
05/AGO/2020

Crônica da semana: O sommelier de pinga

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Paulo Pestana Publicação:17/01/2020 06:00
Toda vez que via um sommelier cuspindo o vinho que acabara de provar, meu amigo reclamava: “Que desperdício! Se fosse eu, bebia tudo”. Era só um chiste, nunca gostou de vinho, jamais abandonou a dourada cerveja — antes a faixa azul da Antárctica, hoje dando preferência à Original ou Stella Artois.

Não é apenas uma preferência; desde a adolescência derruba garrafas com tal volúpia que os amigos acham que ele gostava mesmo é de ouvir o barulho da tampinha sendo aberta. Eis que o amigo cervejeiro seguiu a estrela que o destino marcou na testa dele e abriu um botequim. Houve apreensão inicial, justificada — muitos achavam que ele acabaria com o estoque. Mas passou.

Já são 10 anos de atividade, um sucesso com freguesia fiel, feliz com o tratamento e liberdade que um bom estabelecimento dá. Ele se mantém fiel à cerveja, continua alternando aquele mal-humor típico de dono de bar com a felicidade que extrai do copo, mas a profissão pediu mais.

O fino paladar dos frequentadores exigiu que ele colocasse algumas garrafas de pinga à venda, o que inicialmente foi feito a partir dessas listas que são publicadas aqui e ali, cheias de jurados que fazem cara de entendido.

Nada de aguardente popular, dessas misturadas que só servem para esquentar as tripas depois de agir pelas entranhas, uma mistura de diabo verde com soda cáustica. Mesmo que não tivesse nenhum nome a zelar, cuida da freguesia.

De vez em quando, provava uma dose, tirava o sabor; começou a comentar, descobrir as diferenças do retrogosto deixado pela madeira dos barris, a qualidade das branquinhas.
Virou um conhecedor. Sem abandonar a cervejinha.

Dias atrás, em viagem a Belo Horizonte, aproveitou para renovar o estoque do boteco. As cachaças mineiras têm o dom de enfeitiçar. A mistura do terroir — a relação entre o microclima e o solo de determinadas regiões — com a alambicagem no ponto exato oferecem condições ideais.

Há pinga boa em outras regiões do país. Paraíba, interior de São Paulo, Santa Catarina e Goiás, por exemplo. Mas em nenhum lugar há tanta pinga boa quanto em Minas. E o nosso amigo estava atrás de rótulos novos, ainda desconhecidos, até porque não queria pagar as exorbitâncias que cobram quando a cachaça chega à fama.

A simpática vendedora fez as apresentações. Abria uma garrafa, botava uma dose no copinho e oferecia: bebe essa! E mais outra, outra. As que ele gostava mandava logo separar algumas garrafas.

Se esqueceu da lição do sommelier, que bochecha e não bebe o vinho. Ele não só bebia tudo como estalava os beiços em sinal de aprovação. Na quarta dose, ficou bonito; na quinta começou a esbanjar valentia e na oitava estava — além de valente e gostoso — rico.
Muito rico.

Foi arrastado à força do local. No dia seguinte, cara inchada, gosto de cabo de guarda-chuva, só tomou Fanta uva. As garrafas de cachaça estão no Butiquim do Tuim, na Quituart, mas ele nem olha para elas. São conhecidas como “as que derrubaram o dono”.

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