Brasília-DF,
23/OUT/2018

Confira entrevista com Marco Nanini, que está em cartaz com monólogo no DF

Em entrevista ao Correio, o veterano ator falou sobre a peça, a parceria com Guel Arraes e o possível fim do seriado A grande família

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Rebeca Oliveira Publicação:20/09/2013 06:15
 (Cabéra/Divulgação)
Você é um artista consagrado no cinema, teatro e TV. Como consegue se dedicar e alcançar um resultado tão boa em todas essas vertentes?
Procuro manter o foco no que estou fazendo em cada momento. Seja na TV, no teatro ou cinema, me concentro no universo do personagem que interpreto. E nas indicações da direção, sem deixar de absorver as informações de toda a equipe técnica e de criação. Para mim esse conjunto é um vastíssimo parque de diversões. Conjecturar sobre o quê fazer é lúdico, mas ainda mutável. Já realizar a interpretação é definitivo. Então, a hora de de ‘dar vida’ ao personagem, é também sofrida. Faz parte.

Quais os erros mais comuns que os trabalhadores cometem ao pleitear um aumento salarial?
Imagino que seja eleger um momento de crise na empresa.

O trabalho do ator é quase como o de um jornalista – servimos ao público, por isso, é difícil saber quanto ele vale. Você, ao pedir um aumento, já recebeu muitos nãos?
É sempre constrangedor estar presente numa controvérsia sobre o seu próprio valor. Tem gente que tira de letra. Invejo, mas essa vocação anda longe de mim. Há muitos anos tenho a sorte de contar com meu bom amigo, sócio e produtor – Fernando Libonati – para gerenciar minhas atividades.

No livro com mesmo nome, Georges Perec tem uma narrativa rápida, sem vírgulas ou ponto final. Como você traduz isso para o palco?
O texto tem por base um organograma de computador (ilustrado no livro de Pérec e também reproduzido no espetáculo) onde estão todas as possibilidades que um funcionário pode enfrentar na tentativa de pedir um aumento a seu chefe. Com a narrativa baseada na repetição que propõe este organograma, subdividimos o texto em partes, ou ítens, que anunciam as circunstâncias de cada momento. Embora as tentativas do funcionário que pede o aumento resultem sempre em frustração, a abordagem de Perec é repleta de ironia e compaixão. São elementos de grande riqueza dramatúrgica. Mas o protagonista não é o funcionário, ainda que só se fale de sua situação. Sendo a narração em terceira pessoa, o protagonista é o palestrante. Para o uso do discurso direto optamos por mudança repentina de tom na interpretação, em alguns momentos quando o palestrante vivencia – à sua maneira – outros personagens que ele cita. Esses detalhes, entre outros, foram orientando e dando forma à cena.

Guel Arraes define o monólogo como um texto de antiajuda. O que você destacaria na narrativa da peça?
O estilo peculiar, matemático do texto. Perec expõe com prontidão o raciocínio de um computador. Sim ou não. Isso ou aquilo. E as consequências da escolha. Em seguida nos deparamos com novo sim ou não e suas consequências… A uniformidade do tema é pretexto para crítica às sujeições impostas pelo mundo corporativo, mostrando o quanto de ridículo tem a vida moderna. No espetáculo procuramos encontrar emoções para apoiar a versão teatral, dar-lhe vida. Mas salientar o humor, ou o patético, ou misturá-los requer atenção e delicadeza. Não é, portanto, uma peça de humor rasgado – que também gosto muito de fazer. Aqui o humor existe – e bastante, mas com discrição.

Alias, já são 1/4 de século de parceria com Guel, mais do que muitos casamentos atuais... O que aconteceu com vocês foi um encontro de almas?
Temos muita afinidade e sintonia no trabalho. Fizemos juntos vários projetos. Não houve planejamento para isso, foi acontecendo. E lá se vão 25 anos de estímulo para mim. Guel traz sempre um desafio tentador a cada convite. Como este agora. O texto do Perec ele me mostrou há uns dez anos. Convidamos José Almino para a tradução pensando em levá-lo ao palco. Só deu pra fazer isso agora. Com a mesma e bela versão que Almino fez especialmente para nós.

Para alguns, a burocracia é um pesadelo. Para outros, um mal necessário. Como você a enxerga, já que, antes de ser ator, trabalhou em um banco?
Essa foi uma experiência muito breve em minha vida. Felizmente. Eu não tinha jeito para a coisa. Confesso que o meu universo é o da fantasia.

Em entrevista há alguns meses com Luís Miranda, perguntei como ele encarava os boatos sobre o fim da série A grande família. Ele disse que era o processo natural que as coisas têm e que, se acabasse, poderiam voltar em outro período. E você, como lida com essa hipótese? Como seria o último dia de gravação na pele de Lineu?
Faz tempo que essa é uma hipótese recorrente. Em 2001, antes mesmo de terminarmos o primeiro lote do seriado (a principio seriam 12 episódios, um pouco mais, um pouco menos) já se cogitava sobre isso. No início deste mês fechamos as gravações da temporada do ano de 2013, que será mais curta. Foi o episódio de número 466. O programa está se transformando, mas o fim naturalmente chegará, como disse o Miranda. Meu último dia encarnando o Lineu será de serenidade e carinho. Afinal, já temos ótimas lembranças dos nossos 13 anos de convívio.

Você tem décadas de carreira que renderiam horas de conversa. Mesmo assim, ao procurar seu nome em sites de busca, os primeiros resultados são sobre a sua sexualidade. Se arrepende de ter tornada pública essa nuance de sua vida pessoal?
Não.

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