Brasília-DF,
19/OUT/2018

Humberto Gessinger e Lenine apresentam novos projetos em show

Os músicos fazem show nesta sexta-feira (8/8), às 21h, no Minas Brasília Tênis Clube

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Luana Brasil - Especial para o Correio Publicação:08/08/2014 07:02Atualização:08/08/2014 09:51
O show de Gessinger mostrará energia das músicas da carreira solo e dos Engenheiros do Hawaii
 (Glaucio Ayala/Divulgação)
O show de Gessinger mostrará energia das músicas da carreira solo e dos Engenheiros do Hawaii

Conexões com diferentes artistas marcam as carreiras dos músicos Lenine e Humberto Gessinger. Não por acaso, ambos se apresentam no Projeto Encontros, em Brasília, nesta sexta-feira. O cantor e compositor pernambucano vem à capital com a turnê Chão — baseada no décimo álbum da carreira, considerado pela crítica como a “porção de verdadeira ousadia”.

Gessinger apresenta a turnê Insular, homônima do último disco. A apresentação, garante o gaúcho, mostrará energia das músicas da carreira solo e dos Engenheiros do Hawaii. “Procurei um espaço intermediário entre as almas dos artistas”, explica em entrevista ao Correio.

Confira entrevista com Humberto Gessinger

Nos anos 80, num contexto pós-guerra fria e de fim das ideologias, tu tinha letras mais politizadas. Hoje em dia - me parece - teu traço é mais existencialista e introspectivo… Queria que tu comentasse esse aparente corte que há no formulação do conteúdo das letras.

A gente vive hoje num mundo muito mais complexo, com muito mais cores na paleta para se pintar.  Não é mais aquele mundo preto e branco pós guerra fria… Não tem mais essa coisa de certo ou errado, esquerda ou direita… Têm muito mais coisas pra gente pintar, um mundo muito mais sutil e menos baseado em políticas partidárias. É mais uma política pessoal, do dia-a-dia, do cotidiano.   Mais do que ter perdido o interesse pela política, houve uma mudança no foco desse interesse.

Quais foram as influências intelectuais e artísticas de quando começaste?

No lance da música, eu me formei escutando bandas progressivas dos anos 70 e MPB. Na literatura, acho é algo bem mais aberto e menos linear. Lembro que o primeiro livro que li, que foi comprado com o meu dinheiro (o que faz toda a diferença, porque é quando tu deixa de fazer outra coisa pra ler)  foi  O Lobo da Estepe do Hermann Hesse. Descobri esse livro porque havia uma banda americana chamada Stephenwolff  e fiquei curioso para saber o porquê do nome.  Meu contato com a  literatura foi através da música. Mas falando de literatura, gosto muito do pessoal daqui do sul, do Moacir Scliar, Luis Fernando Veríssimo...  É uma formação bem aleatória.

Tu já publicaste seis livros… Em que momento a música se fez insuficiente como modo de expressão e te fez rumar para a literatura? Como foi isso?

Na minha vida particular, a palavra escrita é anterior à palavra cantada. Sempre gostei de escrever cartas, redações, colocar no papel tudo o que queria dizer. O que aconteceu foi que a música apareceu para o público antes dela (a literatura)… E também tem esse outro lado: tem coisas que vêm pra ti em forma de texto, outras vêm em forma de música…

Tu costuma dizer que a literatura une a solidão de quem lê com a solidão de quem escreve. Que solidão é essa à qual tu te refere?

Escrever ou ler um texto são dois exercícios solitários. Me parece que a relação do escritor com o leitor é muito mais direta e  introspectiva e também muito mais abstrata. Eu acho que  a música é muito mais rápida… A literatura… Numa página branca tu coloca uns pontinhos pretos ali e saem palavras que vão traduzindo o que tu tá pensando, sentindo… E a música tende a ser uma coisa mais literal mesmo. A audição de uma música pode ser coletiva, mas a leitura de um texto é sempre individual.

Humberto: 'me sinto muito mais sensível hoje. Talvez não mais sábio, mas mais sensível' (Glaucio Ayala/Divulgação)
Humberto: "me sinto muito mais sensível hoje. Talvez não mais sábio, mas mais sensível"

A literatura te abriu para um público além do que te escutava?


Cara, é difícil saber isso. Se abriu para novos públicos… Quando iniciei era muito mais fácil saber quem te ouvia e como te ouvia. Hoje em dia é muito mais fragmentado. Difícil saber quem é teu público e o que é o público. Tu pega um vôo e  pode ir sentado ao lado de pessoas que sabem absolutamente tudo a teu respeito, das tuas intimidades através do Instagram ou podem nem saber de onde tu é. Acho mais legal assim…. Tu não conseguir mais saber quem é teu público e quem não é. Apesar de terem mais ferramentas, é mais difícil mapear… O que eu acho maravilhoso, porque exige mais respeito do artista em relação aos seus fãs. Eu não quero que políticos façam pesquisa para saber o que eu penso ou que artistas façam pesquisa pra saber o que me toca. Eu não quero fazer discos que agradem os meus fãs, nem fazer livros para eles. Eu quero que eles busquem uma verdade interior artística, política e perdurem nela e corram o risco de encontrar pedras no caminho.

O que é esta entidade que a gente só descobre que existe quando sai do sul e costumam chamar de “rock gaúcho”?

Não tenho a menor ideia (risos)… Muitas vezes já me perguntaram isso, já disseram até que eu representava o rock gaúcho, mas eu não tenho a menor ideia do que é, nem do que se trata! (gargalhadas)… Quando eu tento definir, penso que a característica mais marcante do rock feito no sul é uma coisa que sempre existiu aqui e que eu acho que sempre vai existir: são bandas que fazem referência aos anos 1960, 1970. Em 2080 vai ter uma banda gaúcha fazendo rock’n roll dos anos 1970. Essa coisa de fazer um som psicodélico, tipo a Cachorro Grande, essa referência constante ao rock sessentista, setentista… Isso é uma característica gaúcha. Tem uma coisa no ar que eu não sei o que é, mas que faz com que tenha sempre essa onda aqui.  Acho também que existe uma formação mais fonográfica, de ouvir mais discos do que ir a shows, acho que vem um pouco do clima gaúcho, do frio… A gente faz muito mais shows fora daqui do que no Rio Grande do Sul. Acho que é algo do estado mesmo, mais fechado… Tem um outra coisa que eu acho estranho é que aqui “rock’n roll” é um adjetivo. Po, tal coisa é rock’n roll, como se fosse sempre bom. Eu acho que pode ser bom e também pode ser ruim. Sei lá, tem valsa, polca e tudo pode ser bom. Mas aqui tem essa coisa do roqueiro gaúcho.

Como foi fazer música na década de 1980, 1990, 2000 e 2010. Quais as diferenças e características dessas décadas?

Nunca tivemos um momento tão bom para ter uma banda. Hoje em dia, os caras podem ter contato mais direto com as pessoas que estão interessadas no show deles, tu não precisa passar pelo filtro do grande líder, do eixo Rio-São Paulo - que foram muito importantes e deixavam tudo muito lento. Eu não sinto a menor saudade dos anos 1980, 1990, porque foram anos muito lentos e hoje em dia a gente pode ser muito mais ágil e informativo e eu acho isso muito bacana. Ficou também muito mais fácil, com tanta tecnologia, tu produzir tua própria música, fazer teu próprio som, ao mesmo tempo aumentou a dificuldade de distribuição e divulgação. Nos anos 1980 a dificuldade era outra, era essa de produzir o teu som.
Por outro lado, hoje tem muita informação, muita gente fazendo muita coisa e isso confunde um pouco a cabeça das pessoas. Ainda assim, eu acho que as pessoas estão muito mais livres.

Já ouvi tu dizendo que os artistas são ilhas. Essas parcerias que tu fizeste no último disco - chamado Insular - com Frank Solari, Bebeto Alvez, Duca Leindecker são justamente conexões entre ilhas?

É meio contraditório ele se chamar Insular e eu chamar um monte de gente, né? Essa coisa do artista que eu me referia a serem ilhas de isolamento... Eu até brinco que em 30 anos de carreira eu toquei com três bateristas e só no Insular eu toquei com quatro. O que eu tava procurando com essas parcerias era encontrar um espaço intermediário entre duas ilhas e que elas não ocupassem um espaço particular, habitassem outro locus, isso que é o legal da parceria.

Em Brasília, o músico se apresentará com um trio de baixo, guitarra e bateria (Glaucio Ayala/Divulgação)
Em Brasília, o músico se apresentará com um trio de baixo, guitarra e bateria

E nesse disco tu retoma o contrabaixo… Por quê?

Cara, é o instrumento no qual eu me sinto mais em casa. Os músicos, obviamente,  tocam através dos seus instrumentos, mas o que as pessoas não sabem é que os músicos ouvem através dos seus instrumentos. Eu gosto muito de escutar música através do som dos baixistas e sentir ali o ritmo e a harmonia da música.

Como vai ser o show aqui?

O show que eu vou levar a Brasília é o mesmo do DVD gravado em Belo Horizonte, que é um trio de baixo, guitarra e bateria. No repertório têm canções do Insular, mas também de todas as fases da minha carreira.

Licks e Carlos Maltz… Qual a tua relação com eles? E às vésperas de completar 30 anos, podemos aguardar um retorno dos Engenheiros?

Caraca! (Risos) Engraçado pensar que algumas coisas até já fizeram 30 anos, o primeiro ensaio, elaboração do primeiro disco… Difícil saber quando é o aniversário de uma banda porque são tantas coisas, primeiro ensaio, primeira gravação… Com o Carlos eu tenho uma relação mais próxima, ele mora em Brasília, a gente fala seguidamente por email e quando eu vou aí para fazer show. O Licks eu falo muito pouco, faz anos que eu não falo com ele. Mas o certo é que nos dois próximos anos eu vou seguir e tocar o Insular . Eu sinto muito prazer em trabalhar com eles, foram dois caras que tocaram comigo, a parceria é um prazer imenso,  mas nos próximos dois anos não vai rolar porque eu tou assim focado no Insular mesmo.

E por que é tão bom torcer pro Grêmio? (Gessinger é torcedor fanático do Grêmio Foot Ball Porto Alegrense)

Cara… As justificativas para esse tipo de coisa costumam ser ridículas, mas não por serem ridículas deixam de ser mais verdadeiras… Eu acho a história do Grêmio muito bonita, acho a camisa do Grêmio maravilhosa, ele tem uma história que mistura prazer e sofrimento. Eu imagino que a paixão de cada torcedor e sua torcida seja muito parecida. Se tu entrevistar um torcedor do Palmeiras ou do Corinthians, ele vai dizer uma coisa muito parecida. Um time não é aquela associação que tá no campo, um time são as emoções que tu projeta nele, como uma tela em branco. Como as bandas são, elas acabam marcando a tua vida, tu te projeta nelas… Isso acontece com time de futebol também. O Grêmio é o que cada torcedor projeta nele. Acho que essa é a importância de um time e das paixões.

3 milhões discos, 20 álbuns e ainda assim tu te consideras um outsider?

Pois é, eu sempre tive uma sensação de inadequação, que sempre me acompanhou. De me achar muito MPB quando tava trocando ideia com os caras rock’n roll e me sentir muito rock’n roll quando tava com os caras da MPB. E então eu fui percebendo que essa não era uma sensação só relacionada à minha arte, ao meu ofício, mas se passava na minha vida pessoal mesmo.

O Diabo é sábio porque é velho? Tu és mais sábio aos 50 que com 20 anos?

Eu acho que no caso do Diabo isso talvez seja verdadeiro. Pelo meu lado, tenho ficado cada vez mais burro, o que é algo bem agradável quando tu trabalha com arte. Cada vez tenho menos certezas, acho que isso é bom, porque me sinto muito mais sensível hoje. Talvez não mais sábio, mas mais sensível.

Lenine e Humberto Gessinger

No Minas Brasília Tênis Clube (Estr. Parque das Nações, Via L4),  sexta-feira (8/8), às 21h. Ingressos a R$ 50 (frente do palco) e a R$ 80 (camarote open bar). Pontos de venda> Zimbrus (305 Sul, Pier 21 e Águas Claras) e Chilli Beans (Conjunto Nacional, Boulevard Shopping e Pátio Brasil). Não recomendado para menores de 18 anos.

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