Brasília-DF,
18/DEZ/2018

Sopro ganha fôlego contemporâneo com a visão dos Irmãos Guimarães

O espetáculo não é linear e a fala, o silêncio, a luz, as sombras e a expressão corporal são mais que detalhes

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Rebeca Oliveira Publicação:19/09/2014 06:35Atualização:19/09/2014 15:52
Montagem não linear leva contemporaneidade à obra de Beckett (Diego Bresani/Divulgação)
Montagem não linear leva contemporaneidade à obra de Beckett
Livre adaptação dos textos Atos sem palavras I e Passos, do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), somada a direção nada óbvia dos irmãos Adriano e Fernando Guimarães, Sopro é um mergulho em águas profundas. Interpretadas em sequência, as peças ganham fôlego contemporâneo com a visão aerada dos Irmãos Guimarães, embora esteja calcada em dois clássicos de Beckett, ganhador do prêmio Nobel em 1969.

Em debate, questões como existencialismo, efemeridade da vida, resiliência e autoconhecimento. O espetáculo não é linear e a fala, o silêncio, a luz, as sombras e a expressão corporal são mais que detalhes: é deles que nasce a força da apresentação.

Com a carioca Liliane Rovaris e as brasilienses Yara de Cunto, Giselle Rodrigues e Valéria Rocha no elenco, o espetáculo reúne as duas pequenas peças (chamadas dramatículos) em uma narrativa que investe na quebra de convenções, comum no trabalho de Beckett e dos Irmãos Guimarães. "A encenação nem sempre passa pela via de entendimento lógico. Sopro precisa ser enxergada não só pela razão, mas por outras vias de acesso, como a sensibilidade", conta Adriano.

"Na obra beckettiana, nada é muito certo. As coisas são transitórias, a peça não tem um fim determinado, poderia acabar a qualquer momento, e, mesmo assim, iria continuar densa, questionadora, angustiante", diz Yara De Cunto.

Duas perguntas para Adriano Guimarães
Como foi a escolha do elenco para Sopro?

Já havíamos feito uma performance com a Yara de Cunto há um ano. Ela está presente nas duas peças. No processo de criação, ela nos interessa como pessoas, não só como bailarina e intérprete. Yara tem uma experiência de vida incrível, sempre muito envolvida com a arte. Para nós, o que o artista é na vida, em seu cotidiano, é muito importante. Todas elas -- Liliane Rovaris, Yara de Cunto, Giselle Rodrigues e Valéria Rocha -- nos interessam por seus infinitos particulares.

Como reage quando a obra de Beckett é classificada como de difícil acesso ao público, por se tratarem de textos densos e não lineares?

Pesquisamos a obra beckettiana desde 1998. Este ano, começamos uma série de eventos em agosto, que contou com palestras, oficinas e performances na intenção possibilitar que o público tivesse uma visão mais arejada da obra dele. De fato, Beckett é diferente dos demais dramaturgos. Sua obra não se baseia só no dito, nas falas. Ele é mestre na quebra de convenções. O que não é dito também importa. A luz, o barulho, o silêncio, tudo faz parte do espetáculo e tem a mesma força.

Duas perguntas para Yara de Cunto
O que significa para você, como atriz, interpretar os textos densos de Beckett sob a direção nada óbvia dos Irmãos Guimarães?

Fiz teatro até os 17 anos, e depois, me enveredei pelo balé. Hoje, aos 75 anos, recebi um convite dos Irmãos Guimarães para atuar em Sopro. O teatro sempre foi uma paixão, mas, para mim, a interpretação ainda é um desafio. O texto de Beckett não é simples, você tem que dialogar com ele, entendê-lo, e tive a sorte de ter, como uma das parceiras de cena, a Liliane Rovaris, atriz carioca com larga experiência.

Qual passagem ou trecho dos textos mais a marcou?
A cena no ventilador, em que luto contra a força do vento, é muito intensa. Ela demonstra resistência, uma luta contra algo que não se vê. Na obra beckettiana, nada é muito certo, as coisas são transitórias, a peça não tem um fim determinado, pode acabar a qualquer momento, e, mesmo assim, vai continuar densa, questionadora, angustiante, mas essencial ao autoconhecimento.

Sopro
Do Coletivo Irmãos Guimarães. Com Liliane Rovaris, Yara De Cunto, Giselle Rodrigues e Valéria Rocha. Sexta e sábado, às 21h; e domingo, às 20h; no Teatro Sesc Garagem (713/913 Sul, Lt. F, Entrada pela W4 Sul; informações 3445-4415). Até 29 de setembro. Entrada franca, mediante a doação de 2kg de alimento não perecível (exceto sal) e retirada de ingressos duas horas antes do espetáculo. Não recomendado para menores de 14 anos.

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