Brasília-DF,
26/SET/2018

Peça de Bertolt Brecht é recriada com críticas à hipocrisia burguesa

A Cia. de teatro Barcaça dos Beltranos faz uma adaptação em que o drama e a comédia são condensados em um texto reflexivo e dinâmico

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Rebeca Oliveira Publicação:03/10/2014 07:30Atualização:03/10/2014 13:31
Com configuração moderna, companhia recria clássico do dramaturgo Bertolt Brecht (Cia Barcaça dos Beltranos/Divulgação)
Com configuração moderna, companhia recria clássico do dramaturgo Bertolt Brecht

Criada pelo alemão Bertolt Brecht na década de 1920, a comédia O casamento do pequeno burguês poderia, com facilidade, ter sido escrita na atualidade. A transformação de um festivo matrimônio em troca de farpas em família tem, como pano de fundo, críticas à hipocrisia burguesa e à inversão de valores.

A Cia. de teatro Barcaça dos Beltranos faz uma adaptação em que o drama e a comédia são condensados em um texto reflexivo e dinâmico. “O conflito permanece, embora a obra seja uma livre adaptação em que não deixamos claras questões como a própria época”, diz o diretor Daniel dos Santos.

"A hipocrisia criticada por Brecht está lá e, também, ao nosso redor. Os vários setores da sociedade, sobretudo a chamada elite, mostram um certo verniz no que se refere ao convívio entre pessoas", conclui.

Leia a entrevista com o ator e diretor Daniel dos Santos

No script, vocês relatam que a peça tem como pano de fundo uma crítica as relações sociais e jogos de aparência comuns na nossa sociedade. Ao mesmo tempo, ela é ambientada como se fosse em outra década. Como fazer a fusão entre o antigo, com o texto de Bertolt Brecht de 1920, e o novo, os tempos modernos?

É possível esta fusão, justamente pelo fato do chamado jogo de aparências ser atemporal: se pensarmos bem, apesar de épocas distintas, é o mesmo. Mudam-se apenas os personagens e seus contextos históricos. Mas a hipocrisia criticada por Brecht está lá, e também ao nosso redor, atualmente. Desde muito tempo, os vários setores da sociedade, sobretudo a chamada elite e burguesia mostram um certo verniz no que se refere ao convívio entre pessoas. E o texto retrata exatamente isso: um jantar de família, em que o noivo construiu todos os seus móveis pessoalmente - em uma época em que o grande dilema era economizar, uma vez que a trama se passa em um período entreguerras na Alemanha. Mas nada dá certo. A medida que o álcool e o cansaço começam a fazer efeito dentre os convidados, a máscara de cada um começam a cair, o que resulta em situações trágicas, na noite mais esperada pelos noivos.

Brecht tem como característica um texto muito poético. Vocês mantiveram esse lado do dramaturgo alemão?

Quando Brecht concebeu O casamento do pequeno burguês, ele era apenas um garoto, muito novo. Toda a sua teoria em torno da representação cênica, metodologia do afastamento, ainda engatinhava. Embora a obra seja uma livre adaptação minha, em que, por opção, resolvemos não deixar claro questões como a própria época, mesclando situações ou signos das décadas de 30 e 40, bem como um linguajar mais atual, o conflito de Brecht permanece intacto. A poética e crítica do alemão, aparecem de forma sutil nas frases e posturas dos personagens. Não pela adaptação. Mas pelo o que o próprio autor sugere nas rubricas da obra.

De que maneira estas discussões são postas em cena?

Conversávamos outro dia, no grupo, quando debatíamos sobre o propósito de Brecht ao escrever esta peça. O texto possui, em vários momentos, palavras de baixo calão, palavrões que destoam um pouco de tudo que conhecemos sobre o autor. Talvez sua juventude ou baixa idade foi determinante na criação da obra. Após debater, chegamos a conclusão que a cena pretendida por ele deveria deixar claro, desde o início da montagem, que algo não estava bem. Todos os personagens passam por problemas financeiros, contudo, tentam mostrar, ou melhor, manter uma fachada de superioridade expressa de forma exagerada, que acaba por suscitar no público as reais condições de cada personagem.

Como vocês chegaram até este texto? Como foi o processo para criá-lo?

Conheci a obra durante um trabalho de conclusão de disciplina em minha Graduação de Artes Cênicas na Universidade de Brasília. Na ocasião, a pesquisa resultou na montagem de fragmentos da obra. Em 2009, sugeri aos alunos da Barcaça dos Beltranos uma montagem da obra. Seguimos o texto de forma fiel, inclusive dentro de uma metodologia de representação Brechtiana. O Resultado foi interessante. Houve uma ruptura no processo, pois até aquele momento, trabalhávamos apenas com obras populares do teatro nacional. Brecht foi uma aventura. Mas um presente, e hoje, cinco anos depois, queremos um pouco mais daquela experiência. Porém, a criação desta vez, seguiu uma vertente um pouco mais livre de toda a ideologia de Brecht para a composição da cena.

Em uma época em que as redes sociais ditam as regras de convívio, porque optaram por realizar um espetáculo de época?

Pela própria comicidade do conflito central da trama: a noiva se casou grávida. Todos no jantar, sabem de tal fato. Mencionei aqui, que tal fato é atemporal e perdura. Como se trata de uma releitura, optamos por não deixar claro o tocante da época. Num dado momento sugere uma situação da década de 30, mas que pode ser, facilmente atual e contemporânea. A dança, a postura, a situação sugerida no texto tem como fio condutor a Alemanha em seus períodos de conflitos. Mas a irreverência do elenco durante a criação e a própria liberdade dada por mim no processo, fez com que acrescentássemos situações, fatos, falas ou gírias atuais, o que certamente fará a plateia se identificar e se divertir com as mesmas.

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