Brasília-DF,
21/OUT/2017

Na crônica do Divirta-se mais, Paulo Pestana fala sobre "A força dos astros"

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Paulo Pestana Publicação:26/06/2015 07:38
Normalmente muito alegre, naquele dia, a moça estava taciturna. Semblante fechado, parecia carregar um bocado do peso do mundo nos ombros; pouca conversa, respostas monossilábicas. Mas não desisti e apelei: — Você não é assim, o que houve? Ela olhou, respirou e finalmente falou: — O meu norte é Touro. Na hora, não liguei o nome à pessoa, ou no caso ao animal, e fiz cara de quem não tinha entendido a resposta; mas não insisti.

A explicação: ela tinha ido a um astrólogo e, depois de consultar todos aqueles círculos e mapas e fazer contas, ele decretou que o norte da moça era Touro; o signo, não o bicho. Ela estava inconformada. Dizia que aquilo atrapalhava todos os planos de liberdade que tinha para a vida sem compromissos que imaginou desde muito nova e que explicava por que ela não conseguia voar. O verbo voar é uma expressão dela, não literal, obviamente.

Aí quem começou a voar fui eu; nos meus pensamentos, como no verso de Lupicínio. Ao mesmo tempo em que balançava a cabeça em sinal de entendimento, remoía nos miolos: ainda há quem faça mapa astral; os anos 1980 estão de volta, só que agora o Leo Jaime é um macho sensível de programa de tevê e não mais o goiano mulherengo de antes. Não devia me espantar; afinal os jornais ainda publicam horóscopos. Todo dia.

E horóscopo é igual ao programa do Ratinho: a gente sempre dá uma olhadinha, mesmo que não acredite no que está vendo. Mas tem gente que exagera um pouquinho.

A moça, por exemplo, acredita piamente que não tem como escapar do fado e que a vida dela está escrita. Nas estrelas e nos movimentos dos planetas. Ela continuou falando da influência dos signos nos caminhos que percorreu, mas não me lembro de uma única frase completa. O conformismo incomoda. Se o toureiro controla o touro, basta um pouco de força de vontade para enfiar umas bandarillas imaginárias no lombo do signo.

É óbvio que ninguém escolhe a hora e o local do próprio nascimento. Tivéssemos essa prerrogativa, ninguém nasceria em Ruanda ou às três da madrugada. Mas não disse isso à moça. Também não estraguei a ilusão esotérica com a história de Elmer, geólogo e bandolinista (não necessariamente nessa ordem), que decidiu mudar a data de aniversário para agradar à mulher e festejar com os amigos.

Generoso, diz ele que “empresta” a data para a mulher. Nascido no início do ano, ele só comemora a nova idade em junho. Em janeiro, chove demais, o que atrapalharia a festa ao ar livre que a mulher gosta de fazer no santuário da família, juntando os amigos de Brasília e Anápolis entre velhas jabuticabeiras, num entrosamento musical à base de chorinho, como aconteceu dias atrás. Festa boa, com bolo e velinha de idade falsa.
Ninguém precisa acreditar em destino traçado. Mas há coincidências bacanas, como o nascimento de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, ter acontecido numa sexta-feira 13. Sabe o que isso significa? Nada.

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