Brasília-DF,
19/SET/2018

Na crônica do Divirta-se Mais, Paulo Pestana fala sobre o fim do prazer alheio

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Paulo Pestana Publicação:10/07/2015 06:22
Um amigo garante que a coisa mais fácil do mundo é parar de fumar. Ele mesmo já parou umas 32 vezes —três delas só este ano. Mais fácil que parar de fumar, como se vê, é voltar ao cigarrinho.

Com o fim da série de tevê Mad Men, a gente tem visto menos gente fumando; mas quando vê, dá dó: o fumante virou pária, outra vítima desta sociedade maluca que está sendo criada, em que todos se arvoram a ter poder de polícia para impedir o prazer alheio, como a dizer abertamente que a felicidade dos outros incomoda.

O fumante agora carrega o maço no bolso mais fundo, manuseia o isqueiro como uma arma e olha para o lado, meio envergonhado, para ver se tem alguém reparando. O charme da baforada deu lugar ao reconhecimento de culpa. O fumante, hoje, é um triste; distante da pose de um Clark Gable ou até mesmo das maldades de José Lewgoy.

Eu não fumo. Nunca gostei daqueles ambientes esfumaçados das boates de décadas atrás, tinha engulhos quando o cabelo da namorada cheirava a nicotina e acho que fumar durante uma refeição atrapalha – afinal, é preciso se concentrar no paladar. E concordo que não se deve fazer propaganda de cigarro.

Mas vivemos uma época de exageros, onde se exige um teto acima de 15 metros para que alguém possa acender um cigarro. E o Estado, incompetente como sempre, ainda transfere ao proprietário do estabelecimento o ônus pelo cumprimento da lei — a punição é uma excrescência legal: a multa vai para o estabelecimento. Ou seja: dono de boteco virou policial sem farda e distintivo.

E eles não sabem o que fazer. O moderninho da turma estava se enganando com uma destas piteiras eletrônicas que não tem fumaça nem fogo, só água — um vaporizador, que não deixa cheiro e não incomoda. “Já falei que não pode fumar”, disse o botequeiro, quando viu o vapor. Foi explicado que não era fumaça; ele cheirou, concordou, mas vaticinou: “Não pode porque parece cigarro”.

E dias atrás, em outro ambiente, amigo fumante teve aquela necessidade premente que a cerveja causa e saiu da mesa para acender um cigarro. Ficou a uns 10 metros de distância de nós, outros, mas não desistiu da conversa. Em altos brados, tentava defender os indefensáveis Tite, Dunga e técnicos gaúchos em geral, quando o dono do estabelecimento saiu de trás do balcão para dizer que não podia gritar. Ou seja, não pode nada.

Mudando de assunto: outro dia escrevi neste espaço sobre banheiros de botequim; de como os proprietários estão preocupados em melhorar o ambiente, principalmente para as moças, que passaram a saborear a baixa gastronomia e uma gelada. Dia desses, Silvio Ronaldo me tirou da mesa do Silvio’s (114 Norte) para mostrar o banheiro feminino do estabelecimento, que, aliás, nasceu para agradar à esposa de um ilustre frequentador. “Olha aí”, disse. “Veja se no banheiro de algum estabelecimento tem absorvente íntimo. Aqui tem.” Melhor que o Palácio de Versalles, que nem banheiro tem.

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