Brasília-DF,
22/FEV/2018

Artista plástico inaugura mostra que traz o corpo e processo de impeachment

Newton Scheufle trata os não-limites do corpo e do grotesco

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Vanessa Aquino Publicação:24/06/2016 07:00Atualização:23/06/2016 18:18

Em Estrangeiro o corpo representa o prazer e a perdição do homem
 (Newton Scheufler/Divulgação)
Em Estrangeiro o corpo representa o prazer e a perdição do homem

 

Duas séries que retratam o quanto a arte pode ser libertária ao artista estarão em cartaz, a partir de amanhã, na Galeria Arte XXX. Os traços de Newton Scheufler apresentam o mistério do corpo humano em O estrangeiro — Humani corporis mysterium; e realçam a indignação do artista diante do atual cenário político do país em Sobre a natureza do mal — Notas grotescas sobre um processo de impeachment.

Segundo Scheufler, O estrangeiro retrata o corpo como instrumento, fonte de prazer e desejo, mas também como a perdição do homem, “cuja decadência inexorável nos coloca diante da morte, a eterna senhora do desconhecido e do nada.”

O artista define o corpo como “uma grande casa, onde prazer e desespero se encontram para tomar chã”. Para ele, há tempos tentamos desvendar os mistérios do corpo. “Avançamos muito e, no entanto, continuamos muito distantes de alguns mistérios, de nosso próprio mistério como seres, de nossa vida, de nossa morte, de nossa sorte. O corpo é um companheiro estranho para a consciência. E não se trata apenas de uma questão científica, mas existencial, o corpo é mais do que pele, esqueleto e vísceras; o corpo é um estado de ser no mundo. Desvendá-lo é desvendar o próprio mundo.”


Política

A segunda série da exposição foi produzida logo após a votação do processo de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. “Toda minha indignação como artista e como ser político se manifestou de forma violenta e instintiva, gerando uma série de desenhos produzidos muito rapidamente, explorando o gesto livre como força expressiva, assim estética, e a ironia e a sátira como forças políticas, assim ética”, descreve Newton Scheufler.

Os materiais utilizados foram os mais variados — aqueles que estavam mais acessíveis e que pudessem ser usados sem muito preparação: nanquim, grafite, crayon, pastel e tinta, restos de tinta, e restos de papel, papelão e outros resíduos do ateliê.

Scheufler explica que, passado o primeiro momento, a série prosseguiu em desenhos feitos com um pouco mais de calma, mas com o mesmo espírito de indignação. Sempre questionando simbolicamente o papel da arte e do artista diante de crises éticas e ideológicas. “Que a arte nos ajude a pensar nosso tempo, pois, afinal, todo artista deve comprometer-se com o próprio tempo. A voz do artista deve ser crítica em tempos de crise”, conclui.

Serviço

O estrangeiro — Humani corporis mysterium e Sobre a natureza do mal — Notas grotescas sobre um processo de impeachment

Galeria Arte XXX (R. Sucupira 23, Condomínio Verde, Jardim Botânico). De amanhã a 17 de julho. Visitas agendadas pelos telefones 99230-6980 e 99239-9779. Classificação indicativa livre. Entrada franca.

Leia entrevista com Newton Scheufler.

O que há entre a arte engajada e a arte pura?

Há o contexto histórico, filosófico e político. Em tempos de crise o que paira sobre nossa cabeça é um questionamento sobre o papel do artista é de sua obra. Quando a ética fracassa, talvez seja o momento da estética esclarecer, iluminar o seu próprio tempo. Obviamente que, nos dias de hoje, a discussão entre arte engajada e arte pura não faz muito sentido — de alguma forma toda arte é política e não é. Não há uma regra, cabe a cada artista encontrar seu lugar na história. No meu caso ficou difícil não incorporar uma dimensão político-filosófica à obra, mas isto é uma escolha totalmente pessoal. Daqui a alguns anos, o que hoje é político converter-se-á em pura estética. “Ars longa, vita brevis”.

O que te fez buscar no processo de impeachment elementos para a arte?


A mais pura indignação produziu a mais sincera e imediata manifestação, minha obra é meu brado, nela ressoa minha crítica.

É uma característica do corpo contemporâneo ser fragmentado?

São tempos históricos de fragmentação, mas não foi o corpo que se fragmentou, foi o conceito que se estilhaçou. O corpo é o mesmo, a forma de concebê-lo é que mudou.

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