Brasília-DF,
04/JUN/2020

Caio Blat é especialista em personagens que fogem do lugar-comum

Em Joia rara, o ator precisou raspar todo o cabelo para poder interpretar o monge budista Sonan

Diminuir Fonte Aumentar Fonte Imprimir Corrigir Notícia Enviar
Publicação:09/03/2014 06:05
Personagens insólitos: Caio Blat é acostumado a interpretar papéis incomuns
 (João Cotta/TV Globo)
Personagens insólitos: Caio Blat é acostumado a interpretar papéis incomuns

Aos 33 anos, Caio Blat dá vida ao polêmico monge budista Sonan, da novela Joia rara. Um personagem que decide abandonar a vida religiosa para viver um amor. Papéis controversos não são novidades nas duas décadas de televisão do ator que, com exceção do trapalhão Rafael (em Um anjo caiu do céu, de 2001), não tem carreira pautada em mocinhos tradicionais.

“Tive muita sorte porque fiz tipos diferentes. E isso acabou levando minha carreira para um lado de diversidade, da criação de tipos. Mesmo em Caminho das Índias (2009), quando interpretei um papel com ares de mocinho, tinha a coisa de ser indiano, rolava uma cultura distinta, era outro universo. Fiz alguns vilões, como em Lado a lado (2012). Acho que tive sorte porque essa variedade me instiga e me tira da zona de conforto”, revela o ator.

Caio Blat atribui essa capacidade de interpretar variados papeis a uma questão biológica. “Tenho uma cara muito comum, que ajuda nas transformações. O Bruno Gagliasso, por exemplo, possui um olho que parece uma pedra preciosa. Para ele, é mais difícil se transformar em um morador de favela ou bandido. (Minha característica) acaba ajudando a não se cansarem de mim, por isso, sempre engato um trabalho no outro.”

Não fazer personagens tradicionais impõe desafios que vão além da atuação. Quando recebeu o convite da diretora-geral, Amora Mautner, Caio soube que teria de lidar com algumas mudanças no visual. Ele precisou raspar todo o cabelo, o que gerou algum desconforto para o ator. “É muito radical. A ideia que se tem de alguém com a cabeça totalmente limpa é a de ser calvo ou paciente de quimioterapia. Porém, era importante abrir mão da vaidade”, avalia.

Confira a entrevista com o ator

Como você reagiu ao convite para interpretar Sonan?

A Amora me ligou e fiquei muito emocionado. Assisti a um filme há uns 10 anos que me deixou encantado. Chorei muito quando terminou, de ficar com a camisa molhada. Chama-se "Sansara". Fala sobre um monge que larga o mosteiro porque se apaixona por uma mulher e vira plantador de arroz. Foi um dos filmes mais marcantes da minha vida. E a primeira coisa que Amora disse foi que esse personagem era inspirado nessa obra. Era quase a realização de um sonho para mim. Parecia mágica.

Você tem ideia de como chegaram ao seu nome para o papel?

Tenho. Duca e Thelma me contaram que, um dia, estavam pensando em quem poderia ser, mas que seria bom ter um olho levemente puxado. Nessa hora, "Lado a Lado" estava no ar e apareceu uma cena minha. Tudo coincidiu. E a Amora ainda comentou que era minha amiga e curtia meu trabalho. Nessa escolha dos monges, buscaram atores que tivessem intimidade com espiritualidade, meditação e que gostassem do tema. E o Ângelo Antônio, eu e o Nélson Xavier sempre procuramos um lado aberto para a fé na carreira.

Você já foi recordista de cartas da Globo e ganhou um protagonista muito cedo, em "Um Anjo Caiu do Céu". Mas sua carreira não foi pautada nessa posição. Como analisa sua trajetória televisiva?

Tive muita sorte porque fiz tipos diferentes. Alguns personagens bem marcantes, como o Abelardo Sardinha de "Da Cor do Pecado". E isso acabou levando minha carreira para um lado de diversidade, da criação de tipos. Mesmo em "Caminho das Índias", quando interpretei um papel com ares de mocinho, tinha a coisa de ser indiano, rolava uma cultura distinta, a tradição hindu, a meditação, enfim, era outro universo. Fiz alguns vilões, como em "Lado a Lado" e "Esplendor". Acho que tive sorte porque essa variedade me instiga, me dá mais prazer e me tira da zona de conforto.

Você também se dedica cada vez mais ao cinema...

O cinema foi uma coisa que aconteceu na minha geração. Fomos privilegiados. A retomada aconteceu quando a gente estava ali. Atores 10 anos mais velhos que eu não puderam ter essa carreira na sua juventude. Já tenho mais de 20 produções no currículo. É engraçado porque a gente cresceu tentando ter uma base sólida no teatro e, no meio disso, se manter na tevê.  De repente apareceu essa terceira possibilidade e uma galera se apaixonou. Acabou, infelizmente, me afastando dos palcos, porque uma peça me faria passar um ano sem filmar.

O cinema hoje tem um peso mais importante para você?

O cinema virou nossa cereja do bolo. O trabalho é artesanal, como no teatro, com muita pesquisa, ensaio e um dia inteiro para gravar uma única cena. E que depois fica gravado, não tem a efemeridade do teatro. Para uma peça, você pesquisa, faz um trabalho impressionante e só aquelas poucas pessoas que o assistiram vão guardar o resultado. Filmar nos dá a ilusão de permanência, de uma obra preservada para sempre. Tenho uma prateleira no meu quarto que já tem uns 20 DVDs de filmes que eu fiz. Fico com o maior orgulho de participar desse movimento de contar e, ao mesmo tempo, construir a história do meu país. E cinema era quase um espaço virgem a ser conquistado. A gente não quis abrir mão. Algumas pessoas que foram na minha frente já são diretores.

Selton Melo e Wagner Moura deixaram a tevê aberta de lado para se dedicar quase exclusivamente aos longas. Você já pensou ou tentou seguir o mesmo caminho?

Eles já conseguiram independência financeira. Com um comercial, às vezes, ganham o que faturariam em um ano de contrato com a televisão. Não sei se eu conseguiria isso. Talvez tenha feito escolhas mais radicais na minha carreira, como filmar "Cama de Gato" e "Bróder". Não sou um ator muito identificado com a publicidade. E entra o fato de eu ter feito poucos mocinhos. Eu quase sempre fui o problemático. Fiquei no meio do caminho, como o ator alternativo que faz filmes mais arriscados. Mas sou muito feliz com o lugar que ocupo. E meu físico me ajudou a conquistar esse espaço.

Por quê?

Tenho uma cara muito comum, que ajuda nas transformações. O Bruno Gagliasso, por exemplo, tem um olho que parece uma pedra preciosa, é um homem lindo. Para ele, é mais difícil se transformar em um morador de favela ou bandido. É raro as pessoas apostarem nisso. E acaba ajudando a não se cansarem de mim. Acho que essa é uma razão para eu sempre ter um trabalho engatado no outro.

Manter-se na televisão sempre foi seu foco?

Sempre olhei como um lugar que queria para mim. No Brasil, a única forma de falar para o país inteiro é essa. Novela é uma parte muito importante da nossa cultura porque as pessoas nem sempre têm acesso ao teatro e ao cinema. Isso torna a tevê um instrumento poderosíssimo. E com as tecnologias de hoje, a teledramaturgia talvez esteja retomando um lugar de vanguarda como experimentação estética. Os trabalhos mais interessantes agora são realizados na tevê aberta e a cabo. Nos Estados Unidos, isso é muito evidente. O mercado se fecha e só quer trabalhar com "blockbusters", como vemos aqui, com o cinema brasileiro se dedicando prioritariamente às comédias. Esse movimento tem levado os melhores fotógrafos – que tradicionalmente trabalhavam nos longas – para a televisão. Não tem mais uma minissérie da Globo que não seja fotografada por alguém de quilate, como o Walter Carvalho.

Você não fez tevê a cabo ainda. Por quê?

Eu poderia fazer, só precisaria pedir autorização para isso na Globo. Ainda mais se fosse Globosat. Quero experimentar, mas são séries feitas com orçamento apertado e que demandam dedicação intensa do elenco. Então, evitam escalar atores com contratos longos e que podem ser chamados a qualquer momento para uma novela, um especial ou algo do tipo. Se você for ver, normalmente são pessoas mais livres que atuam.

Você tem outros projetos para a tevê além de atuar?

Tanto a minha geração está chegando a um momento de busca cada vez mais intensa pela realização quanto a televisão vem abrindo espaço para esse tipo de profissional. Tenho um projeto apresentado para a Globo de minissérie em que quero participar do roteiro. E tendo a Amora na direção. É a primeira vez que estou levando uma proposta minha para a Globo sem me ver unicamente como ator.

COMENTÁRIOS

Os comentários são de responsabilidade exclusiva dos autores.

CINEMA

TODOS OS FILMES [+]

BARES E RESTAURANTES

EVENTOS






OK