Brasília-DF,
11/DEZ/2017

Em entrevista, Drica Moraes fala sobre papel de vilã na novela Império

A atriz vibra com as vilanias da amargurada Cora, personagem de horário nobre da Globo

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Agência Estado Publicação:30/07/2014 06:00
Drica Moraes, a Cora de Império  (João Cotta/TV Globo )
Drica Moraes, a Cora de Império

Por mais que fugir dos estereótipos faça parte da estratégia da maior parte dos atores de televisão, é comum que eles trabalhem intensamente um gênero específico na maior parte do tempo. Torna-se uma espécie de zona de conforto. E Drica Moraes sabe que a sua está no humor. Tanto que a atriz assume que pretende investir bastante na comicidade das vilanias da perversa Cora, sua personagem em Império, novela das 21 horas da Globo. "Ela é completamente maluca. Então, acho que esse é o melhor lugar para me empenhar", entrega Drica, que até então não tinha atuado nessa faixa de horário da emissora carioca.

Mesmo assim, a atriz não esconde que o convite para o papel veio com certa surpresa. Afinal, como a comédia se tornou uma marca em suas aparições nos folhetins, essa sempre foi sua principal vantagem na hora de ter o nome escalado para uma produção. Mas interpretar uma vilã está longe de ser uma novidade em sua carreira. Foi pelas mãos de Walcyr Carrasco que a carioca experimentou a posição pela primeira vez, quando deu vida àarrogante Violante de "Xica da Silva", na extinta Rede Manchete, em 1996.

Curiosamente, esse trabalho se mostrou um verdadeiro divisor de águas em sua carreira. Ganhou o prêmio de melhor atriz da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e, de quebra, a vaga de mocinha da novela Era uma Vez, que a Globo estreou em março de 1998. "Foi uma época muito proveitosa. Serviu como um embrião para fazer tudo que faço hoje na pele da Cora", analisa a atriz.

Na entrevista a seguir, Drica fala sobre Império, sua leitura a respeito das maldades de Cora e que já não enfrenta restrições por conta da batalha que venceu contra o câncer - ela foi diagnosticada com leucemia em 2010.

Cora é uma vilã amarga e você é uma atriz acostumada a interpretar personagens cômicas. Como você enxerga esse papel?

DRICA MORAES -
Eu acho que ela tem o que todos nós temos: o peso da luta pela sobrevivência. Só que a Cora sente uma necessidade de poder maior que a das outras pessoas. No caso dela, isso é patológico. E é o que você falou: estou acostumada a viver tipos de humor na televisão. Essa não foi uma escalação óbvia. Exatamente por isso sou muito grata ao Aguinaldo Silva (autor) e ao Papinha (Rogério Gomes, diretor). Partiu deles essa ideia de me ver interpretando essa maluca.

O fato de ser uma vilã faz você ter algum receio?

DRICA - As vilãs do Aguinaldo são tão perversas e inesperadas que, ou caem no gosto popular ou não caem. Não existe muito meio termo. Bom, eu espero que a Cora caia. Mas faço tudo com humor. Até mesmo esse dramalhão da Cora tem muito de humor.

Esse é um trabalho mais denso e carregado de fortes emoções. É fácil deixar esse peso no estúdio e voltar leve para casa?

DRICA -
Às vezes, sim. Em outras, não. A gente tenta deixar tudo ali, mas nem sempre dá. Se bem que o trajeto para casa é tão longo que já vou esquecendo no caminho. Aproveito para deixar para trás as coisas que não devo levar para casa. É um volume tão grande de trabalho e de emoção que, ou você se desgruda disso completamente ou vai cair doente. Tem de exercitar essa facilidade de se desprender do que foi feito.

E como você faz para que isso aconteça?

DRICA -
Já saio da emissora sem a maquiagem, com a minha roupa e ligando para um amigo ou para o meu filho.Vou me conectando com a minha vida e deixando essa personagem sair aos poucos. Mas é intenso, dá um cansaçona alma.

Chegou a se inspirar em alguém para construir a personagem?

DRICA -
Não, a Cora surge de uma confusão de sentimentos. A tragédia clássica é a máscara do riso e do choro. As duas estão sempre muito juntas. E essa mulher tem uma relação estranha, alguma doença afetiva com a irmã. Queria ser o que ela era, ter o que ela tinha. Misturo essas sensações e a Cora vai aparecendo

Pela história, não aparecem evidências, mas é possível que exista uma paixão escondida pelo José Alfredo, personagem do Alexandre Nero?

DRICA -
Olha, não tem nada escrito. Até temos pistas, mas nada muito concreto. Mas eu, pessoalmente, acho que essa é uma informação que pode ser revelada mais para frente. Ela quer o poder e o dinheiro dele, porqueela vai atrás da fortuna através da sobrinha, Cristina (Leandra Leal).

Com uma carga de amargura tão forte, onde você pretende investir para inserir mais humor nas suas cenas?

DRICA -
A Cora se mete em ciladas meio de circo. Ela se vê presa dentro dos lugares, precisa sair por cordas, corre no meio das situações, fala alto e xinga, enfim, tem um lado meio palhaço aí

Cada vez mais o público vibra com as vilãs. Como é a sua relação com as vilãs de novelas?

DRICA -
Acho que as pessoas estão exercendo mais as suas pequenas vilanias. E as personagens escritas para serem más acabam sendo mais ricas também. Isso porque elas podem muito, têm um elástico grande de ações e emoções. É uma delícia bancar a palhaça ou até mesmo a heroína sendo uma vilã. É o tipo de personagem que tem um passaporte mais poderoso.

Você prefere vilãs às boazinhas?

DRICA -
Gosto é de bons personagens. E sinto mesmo que tenho um nas mãos. A equipe é excelente e todo mundoestá muito empenhado em fazer um bom trabalho. "Império" é uma novela carismática, que tem pegada e papéis bem estruturados. Todos os ingredientes do melodrama clássico estão ali: humor, sensualidade, crueldade, mistérios e revelações rocambolescas, enfim, tem tudo para dar certo. Isso é o que eu prefiro.

Sua primeira novela foi Top Model, em 1989. Nesses 25 anos, tem alguma personagem da qual guarde mais saudade?

DRICA -
Ah, eu fico feliz de ter uma trajetória tão múltipla, variada. É importante para o ator não ter estereótipos e poder ganhar papéis bem diversificados. Acabei de fazer "Doce de Mãe", onde eu interpretava umaheroína romântica. Gostei muito, foi um trabalho que adorei.

E como você analisa esses 25 anos?

DRICA
- Apanhei, mas fui bem abençoada também. Tive uma boa vida Minha mala é recheada de coisas bem legais.

Há cinco anos você adotou um bebê. Está sendo tranquilo conciliar o ritmo de gravações de uma novela das 21horas com uma criança em casa?

DRICA -
Eu tenho conversado bastante com o Matheus. Falo que ele vai ficar pouco comigo nesse tempo. E ele está revoltado porque não vai poder ver a novela. Mas é muito novinho e essa não é uma novela para crianças da idade dele. E ele já entende. Conseguiu atingir uma maturidade em relação a isso. Quando eu fazia Guerra dos Sexos, ele ficava muito triste porque eu beijava o Fernando Eiras. Chorava, achava injusto, perguntava por que eu tinha feito isso. Hoje já sabe que é um trabalho.

Você já manifestou o interesse em adotar outra criança. Ainda pensa nisso?

DRICA -
Acho que não. Vou fazer 45 anos (no dia 29 de julho), penso que já estou em outra fase da vida.

Você planejou alguma coisa diferente para o gestual, o comportamento da Cora?

DRICA -
Eu vejo a Cora como um ser do reino animal. Uma mulher que quer devorar. E de alguma maneira isso está impresso no corpo e no visual, sim. Mas não me programo para isso, acho que acaba aparecendo na hora degravar. Não sei exatamente qual foi o problema dela, mas alguma coisa aconteceu. Pode ter sido deixada de lado pela família ou ter sofrido uma pressão religiosa forte que a deixou reprimida sexualmente, mas existe um desvio. Aos poucos ele vai aparecendo e eu vou absorvendo isso para a personagem. A sequência da morte da irmã dela, por exemplo, foi bem forte. Ali, era o balançar do rabo da serpente dela. Ela não mata a irmã,mas... Bom, ela mata a irmã! De uma certa maneira, porque tem a tortura psicológica. Um lado de ir deglutindo e se divertindo. Eu estou aprendendo a fazer essa outra camada dela, menos sensível e mais observadora do drama do outro.

A morte foi em função de um câncer. Como lidou com isso, já que você passou pela mesma situação?

DRICA -
Isso é parte da minha bagagem. Estou na vida e quem está na chuva é para se molhar mesmo. Mas não éa minha história, é a história de uma pessoa. A doença faz parte da vida, é claro. Os personagens lidam comisso. Talvez eu tenha tido mais elementos para lançar mão na hora do "gravando".

Hoje, como você está? Há pouco tempo você comentou que tinha algumas restrições...

DRICA -
Estou ótima. Não tenho mais nenhuma restrição. Mas preciso falar baixo, porque podem ouvir e quererme botar para gravar de madrugada, até cinco da manhã! Olha, as vilãs do Aguinaldo têm de estar saudáveis ou não aguentam.

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