Brasília-DF,
20/NOV/2019

Crônica da semana: Manual de um bom mentiroso

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Paulo Pestana Publicação:08/11/2019 06:01
Todo mundo sabe que mentir é feio. Embora não esteja relacionada entre os pecados mortais, capitais e veniais que regem a vida dos cristãos, a mentira não é considerada uma ação das mais educadas; mesmo as mais inocentes, típicas de faroleiro — que, aliás, depois de pescador, é a profissão mais afamada neste metiê.

Faroleiro é uma dessas profissões em extinção; começou quando não precisavam mais acender o fogo toda noite, assim como os acendedores de lampiões públicos de antigamente, que não sobreviveram à luz elétrica. Hoje os faróis são controlados remotamente, mas a fama de mentiroso persiste, herança das vantagens que eles supostamente contavam.

Com os pescadores, a história é outra. Eles continuam arrolados entre os maiores mentirosos do mundo, obviamente pelos exageros incluídos nas histórias que contam. Mas como diz um amigo, qual é a graça de pescar se não puder contar uma mentirinha?

O mesmo princípio vale para o botequim. Uma boa mesa tem que ter pelo menos um mentiroso, no mínimo um exagerado. Temos um companheiro assim. Um bom mentiroso é um manipulador com um dom natural para contar as maiores barbaridades sem se atrapalhar.

Outra virtude é ser bom ator; mentiroso que se entrega não tem muito valor, é desmascarado logo; portanto, é preciso ter convicção. E fluência. Uma linguagem escorreita pode conter uma mentira cabeluda, ajuda a contar o caso mais estapafúrdio, ainda mais se for de maneira espontânea e eloquente.

De tanto ouvir nosso amigo, o Faixa — que é advogado, portanto sabe a gênese de uma peta — começou a elaborar o manual do cascateiro, ainda de forma oral, mas que ele promete que será escrito (ninguém acredita). Baseado no nosso amigo, anunciou o decálogo do bom mentiroso: 

1. Toda mentira precisa ter um fundo de verdade — mentira boa tem que ser crível. Para ele, não dá para dizer que viu mula sem cabeça botando fogo pelas ventas, porque sem cabeça não tem venta;

2. Espontaneidade — mentira deve surgir casualmente e ser contada naturalmente, como se fosse corriqueira;

3. Atuação impecável — o mentiroso é um ator, precisa estudar seu papel, não pode vacilar;

4. Experiência — mentiroso amador não tem vez;

5. Improvisação — no caso de aparecer um espírito-de-porco, é preciso estar pronto para sustentar a história com criatividade;

6. Inteligência emocional — é fundamental verificar os sinais corporais emitidos pelos ouvintes. No menor sinal de desconfiança, é preciso melhorar o caso.

7. Concisão — uma boa mentira é curta. Quanto maior, mais cresce a possibilidade de ser descoberta.

8. Boa memória — importante para não cair em contradições. Por isso, os melhores ouvintes são os homens, que não se lembram de nada e nem ligam se o caso é verdadeiro ou não.

9. Voz firme — não é possível claudicar. Também não pode piscar, mexer muito os olhos ou ficar com boca seca.

10. Cuidado com o Google — não dá para mentir usando dados que sejam rastreáveis. Depois que apareceu o Google, a conversa no bar perdeu muito de sua graça.

Sei não, mas estou achando 10 muito pouco.

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