Brasília-DF,
13/DEZ/2019

Agrupação Teatral Amacaca remonta 'O Rinoceronte', de Eugênio Ionesco

Em cena, diretor Hugo Rodas e sua trupe fazem crítica ao comportamento de manada e à cultura do ódio

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Roberta Pinheiro Publicação:29/11/2019 06:06Atualização:28/11/2019 20:54
Críticas de Eugênio Ionesco, da época da Segunda Guerra Mundial, ganham atualidade em remontagem marcada pelo absurdo e pelo caricatural (Diego Bresani/Divulgação)
Críticas de Eugênio Ionesco, da época da Segunda Guerra Mundial, ganham atualidade em remontagem marcada pelo absurdo e pelo caricatural
 
Quase como caricaturas ou desenhos animados em cena, a Agrupação Teatral Amacaca (ATA), sob a direção de Hugo Rodas, remonta uma adaptação de O Rinoceronte. Com base no texto de Eugène Ionesco, a trupe de macacos teatrais constrói uma linguagem do absurdo pautada na direção e na compreensão dos atores que vai quase ao extremo do grotesco e do cômico para dialogar com o público. "Para que isso também fosse mais recebido na cabeça das pessoas, para que não caísse na monotonia de uma realidade", explica o diretor.

A trama revela o contexto de uma cidade pacata que passa a ser perturbada pela estranha aparição de um rinoceronte em suas ruas. Logo, os bichos aparecem aos montes, frutos da metamorfose de seus habitantes. Entre figurino, maquiagem e movimento de voz e corpo dos intérpretes, o único que resiste a transformação animal é o personagem Bérenger.

O trabalho também é uma segunda montagem da peça feita por Hugo Rodas — a primeira foi realizada em 2003. Contudo, os atores integrantes da ATA que participaram da versão anterior solicitaram ao diretor uma montagem igual. "Eles não quiseram renovar. Foi um trabalho minucioso tanto para eles quanto para mim. A direção seguiu o caminho do absurdo, marcado milimetricamente”, detalha o diretor.

Com o uso da metáfora e da estética quase caricaturesca, Rodas resgata temáticas que Ionesco abordou no período pós Segunda Guerra. O efeito manada visto em muitas sociedades diante de poderes autoritários; a insensibilidade diante da dor alheia; a indiferença com o futuro; quando pensamentos racionais se tornam inaudíveis; a perda do pensamento autônomo quando se está em bando. Em cena, o espetáculo é uma ode à liberdade de pensamento e busca a reflexão sobre a cultura do ódio.

"Será que é uma sorte encerrar o ano com essa peça? Preferia fechar de outra maneira, dizendo outras coisas, tratando tudo isso de outra maneira e não tendo que me impor uma vez mais. É um trabalho muito forte e é muito forte o que estamos vivendo. Voltar uma vez mais há 40 anos e começar a lutar pelas mesmas coisas é muito estranho. É um passo tão forte, tão para trás. Ao mesmo tempo que é um orgulho também fechar o ano mostrando as coisas que precisam ser ditas", afirma Rodas.
 
 
Este é um ano que colhemos muita coisa que plantamos em anos anteriores. Foi um ano muito fértil, o ápice da trajetória da ATA. O Hugo foi resistente para fazer O Rinoceronte, queria fazer algo novo. Só que não vejo como remontagem, vejo como um repertório nosso e acho importante esse resgate. Além de tudo, o Hugo nunca consegue não mexer. Sempre tem algo diferente. O espetáculo parece que foi feito para 2019. As pessoas estão virando rinocerontes, tanto aquelas que estão longe, como aquelas que estão próximas a você. A proposta é muito boa, tanto a estética, quanto a direção. É forte e bonito. Comparado com a anterior, acho que ganhamos em dramaticidade. A peça é um relógio suíço, é tudo coreografado. Como outros trabalho da ATA e do Hugo, é musical. É a música dos gestos, das palavras, no tempo e no espaço, tanto que nos auto intitulamos de orquestra, é como nos enxergamos.
 
 
André Araújo, ator e integrante da ATA

 

Serviço

O Rinoceronte
Da Agrupação Teatral Amacaca (ATA), com direção de Hugo Rodas. No Espaço Cultural Renato Russo. Sexta e sábado (29 e 30/11), às 20h, e domingo (1/12), às 16h e às 19h; 6 e 7 de dezembro, às 20h e 8 de dezembro, às 16h e às 19h. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda no Sympla. Não recomendado para menores de 16 anos.

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