Brasília-DF,
18/DEZ/2017

Corrida pelo ouro no Brasil ganha contornos de drama e denúncia em 'Serra Pelada'

O filme dirigido por Heitor Dhalia examina com lente lupa a vida de seus homens-formiga, alpinistas de uma montanha precária no meio da Amazônia

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Yale Gontijo Publicação:18/10/2013 06:00
Wagner Moura vive o ardiloso Lindo Rico, um dos antagonistas da trama (Warner Bros/Divulgação)
Wagner Moura vive o ardiloso Lindo Rico, um dos antagonistas da trama

Durante todo o tempo de projeção de Serra Pelada, o ponto de foco do personagem do professor Joaquim é uma aliança de ouro no dedo anelar esquerdo, símbolo do casamento abandonado em São Paulo. Cansado do salário de docente e de viver na pobreza, ele deixa a capital paulista para se enfiar ao lado de um amigo na aventura do garimpo na Serra Pelada, no meio da floresta amazônica. Ao fim da jornada, aquele ouro da aliança matrimonial é a única riqueza que restará a Joaquim, mas ele não sabe disso ainda. Como tantos outros, vai sobreviver à jornada de anos no garimpo da Serra Pelada, bem no meio da Amazônia brasileira.

Dados oficiais não dariam conta do crescimento desordenado, da violência física e psicológica, das mutilações sofridas por milhares de homens diariamente naquela cidade do ouro entre as décadas de 1970 e 1980. O filme dirigido por Heitor Dhalia dá conta dessas questões, examinando com lente lupa a vida de seus homens-formiga, alpinistas de uma montanha precária, vivendo literalmente entre vida e morte, pobreza e riqueza. Enquanto o calor úmido da Amazônia modifica a índole de seus protagonistas, o pêndulo oscila entre o maniqueísmo pueril dos antagonistas, os ardilosos Lindo Rico (Wagner Moura) e o coronel Carvalho de Matheus Natchtergaele.

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Estranhamente, não há polifonia de relatos nessa Babilônia. Há uma voz em off que explica três coisas: a relação de infância entre Joaquim (Júlio Andrade) e Juliano (Juliano Cazarré); a hierarquia do garimpo; e, com antecipação, os passos que serão tomados pelos personagens. A narração é de Joaquim, mas poderia ser a de capitão Nascimento ou a do fotógrafo Buscapé. Dhalia converte seu épico em um subproduto de Cidade de Deus ou Tropa de elite, adicionado de magia tropical, sem se dar conta que sua pepita de ouro está sendo derretida nas fragilidades do roteiro escrito em parceria com Vera Egito — e na repetição da fórmula de montagem/fotografia usada em CDD, estética de dez anos atrás.

Confira o trailer do filme


Duas perguntas para Heitor Dhalia

O que você considera a herança deixada pela febre do ouro e pela existência da Serra Pelada nos dias de hoje, nos anos 2000?

O garimpo da Serra Pelada foi nosso western. A diferença é que, nos Estados Unidos, “A conquista do Oeste” tinha caráter civilizatório, colocado entre aspas. Por lá, existia o desejo pela ordem — ainda que fosse a do homem branco. O garimpo da Serra Pelada nasceu do caos. Era surrealista a febre do ouro nos anos 1980. Eu estava pronto para fazer um filme-denúncia das mazelas brasileiras até encontrar a chave do filme como uma aventura. A Amazônia é um lugar quente, sensual, com pulsão sexual forte. Não dava para fazer um filme sem esses elementos. Acho que narramos uma tragédia social brasileira, com toda a nossa complexidade particular, com caráter político.

As mesmas críticas feitas ao tratamento da violência retratada em Cidade de Deus ou Tropa de elite 1 e 2 podem ser dirigidas a Serra Pelada. Isso o incomoda?

A toda hora, durante a produção, eu me perguntava: “Será que estou exagerando?”. Hoje, acredito que não. A violência real da corrida pelo ouro em Serra Pelada foi muito pior do que o ocorrido na tela. Os corpos eram retirados de dentro do garimpo em carrinho de mão. Era um ambiente extremamente brutal. No 30 (zona de meretrício), morriam de dez a 15 pessoas em um fim de semana. O que retratamos não é nem um décimo do que acontecia por lá — são histórias absolutamente estarrecedoras e chocantes.

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