Brasília-DF,
03/AGO/2020

Filme 'O oficial e o espião', dirigido por Polanski, conta com cenas instigantes

A produção venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza

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Ricardo Daehn Publicação:13/03/2020 06:01Atualização:12/03/2020 20:23
 (California Filmes/Divulgação)

Sem nunca ser desfigurado, o cinema de Roman Polanski segue acadêmico, sóbrio e instigante. E resplandecem qualidades em O oficial e o espião. Com investimento milionário, vencedora do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e sagrada vitoriosa (em quesitos como direção e roteiro adaptado) em uma tumultuada corrida pelo César (considerado o Oscar da França), a produção jamais será unanimidade.

Não pelos inquestionáveis méritos artísticos — mas pelo rescaldo de uma sombra que manchou para a posteridade a carreira do cineasta de Chinatown: até hoje, ele segue impune pelo fato assumido de ter feito sexo com uma menor de idade (até onde se sabe, comercializada pelos próprios pais).
 
 
Nem Quentin Tarantino teve as manhas de se aproximar (em close) da figura de Polanski, transposta como personagem da recente ficção Era uma vez em... Hollywood. É escabroso o passado de vítima que também cabe, à luva, no diretor de O oficial e o espião: sobreviveu aos assombros do Holocausto e teve esposa e filho mortos, de modo infame, num crime americano.

Caiu no esquecimento a criação de Tess — Uma lição de vida (1980), no qual é gritante a denúncia contra instituições machistas. Tudo relativizado (ou não), O oficial e o espião traça um paralelo entre o comportamento europeu de discriminação a judeus, em fins do século 19, e o destino de cristãos nas sangrentas arenas romanas.
Degradado, em cerimônia pública, o personagem de Louis Garrel é Alfred Dreyfus, militar que persistiu, ainda que jogado à corrente de injustiças com o peso de um dramalhão assinado por Charles Dickens. Mas Polanski filma um caso real, aos moldes quase documentais.

“Nós seguimos ordens”, simplifica um dos integrantes da corja de militares que armam as difamações contra Alfred Dreyfus. Sem demora, o oficial será encaminhado para a Ilha do Diabo (na Guiana Francesa). Inexperiente, por formação, o coronel Georges Picquart (Jean Dujardin, vencedor do Oscar, por O artista) cairá de paraquedas no setor de inteligência francesa.
 

Tentativa de falsificação


 
Aos poucos, Picquart entenderá os mecanismos aos quais deveria servir; mas, pela verdade, vai espernear demais e não será cooptado. Hierarquia torta, traições, ordens que “não correspondem aos fatos” e violação de dignidades pautam o filme de Roman Polanski, num enredo de corrupção (extraído de reconstituição literária publicada por Robert Harris) que dá lastro para a execração pública de Dreyfus, ao ponto de se ver “enterrado vivo”.

Os desvirtuamentos públicos e a escalada de criminalização representada no cinema de Polanski criam um clima em que um país — a França — não é reconhecido por parte de seus cidadãos. Mais do que atual. Polanski remonta era em que a opinião pública era efetiva e na qual o embate corpo a corpo se dava até mesmo em duelos (de espada), sob acordo de tempo e hora.

No elaborado jogo de perseguições, com proclamações objetivas de “morte aos judeus” e a pilhas de publicações (jornais) seguindo para queima em fogueiras, grita a atualidade do cinema de Roman Polanski.

Numa extensa galeria de coadjuvantes do filme, o brilho está assegurado para os atores André Marcon e Mathieu Amalric, intérpretes de personagens dissonantes do palco de conveniência e encenações: Marcon vive Émile Zola (capaz de afrontar o governo, com a publicação de Eu acuso, no jornal L´Aurore) e Amalric dá vida ao hesitante Bertillon, as da grafologia.

 
Assista ao trailer: 

 

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