Brasília-DF,
18/NOV/2017

José Padilha define produção de Robcop como "made in China"

Em conversa com o Diário de Pernambuco, o diretor do remake discutiu temas que são abordados no filme

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Diário de Pernambuco Publicação:20/02/2014 13:05
Padilha: O RoboCop é um personagem que nasceu de uma ideia bastante fértil do ponto de vista filosófico (Fred Prouser/Reuters)
Padilha: O RoboCop é um personagem que nasceu de uma ideia bastante fértil do ponto de vista filosófico

Por telefone, do Rio de Janeiro, José Padilha concedeu uma entrevista exclusiva ao Diário de Pernambuco e discutiu temas relacionados ao filme Robocop como a situação sócioeconômica de Detroit (cidade onde se passa a ação) a partir da retração da indústria automobilística, super-heróis e repressão policial.

RoboCop seria uma alegoria sobre interferência da iniciativa privada sobre as políticas de segurança pública? Até que ponto isso é real?

Tem sim, no nosso RoboCop, essa tentativa de uma corporação de mudar uma percepção sobre algo. É um tema presente também no primeiro filme. É evidente que o espaço corporativo e o espaço público estão sobrepostos no mundo inteiro. Hoje, até o carnaval tem marca. Você tem o carnaval de tal empresa, o torneio de tênis de tal empresa, o patrocinador da Copa do Mundo. É um processo normal, natural e inerente ao capitalismo. Cabe ao poder público e à sociedade impor limites a esse excesso. Um prefeito, por exemplo, pode proibir que marcas comerciais sejam expostas em determinados espaços de uma cidade ou pode deixar. Esse debate é importante e pode variar de cidade para cidade. No RoboCop que a gente fez, que se passa no futuro, a tecnologia necessária para produzir robôs capazes de substituir soldados na guerra ou policiais no combate ao crime já se desenvolveu a ponto de isso ser factível e os EUA, no filme, decidem que vão utilizar soldados robôs. É permitido que um robô norte-americano mate uma pessoa no Irã, mas se proíbe a utilização dos robôs internamente. Nos EUA, um robô não pode matar uma pessoa norte-americana. Então, uma empresa que produz robôs quer mudar essa lei. Ela cria um factoide. Bota um cara dentro da máquina e vende o homem como robô. É a solução para o crime em Detroit no intuito de mudar a opinião pública na sociedade norte-americana.

Um desenho animado de RoboCop chegou a ser exibido no Xou da Xuxa na década de 1990. De que forma o personagem pode ser visto como um super-herói?

Saiba mais...
Eu não via o Xou da Xuxa (risos), então eu não sabia que tinha existido esse desenho animado. Eu acho engraçado. O RoboCop é um personagem que nasceu de uma ideia bastante fértil do ponto de vista filosófico. Tem dentro dele uma ideia que é bastante diferente de um super-herói. Por exemplo, se eu for fazer um filme sobre o Homem-Aranha, clássico super-herói, ou sobre o Homem de Ferro, as crianças e os jovens querem ser eles ou o Batman. Os filmes são feitos a partir dessa premissa. As pessoas se identificam com o personagem. Ninguém quer ser o RoboCop. Nem o Alex Murphy quer ser o RoboCop. O RoboCop é um personagem muito mais próximo do Frankenstein do que de um super-herói.

Que exemplo de ligação você vê entre as temáticas de Tropa de Elite e Robocop?

No Tropa de Elite 1, tem o curso de operações especiais do Bope, que tinha como objetivo fazer com que o policial seja doutrinado para atuar de forma violenta sem fazer nenhuma crítica ao que está fazendo. Você vê uma coisa semelhante em Nascido para matar (Full metal jacket), de Stanley Kubrick, que mostra uma tropa norte-americana sendo treinada para a guerra e mostra como aquela tropa está sendo submetida a um processo de desumanização, de forma que o soldado que chegasse no Vietnã não fosse capaz de raciocinar sobre o significado do que ele estava fazendo. É uma mecanização do agente da violência. O Verhoeven descobriu uma maneira genial de fazer isso, que foi mecanizar de vez. Ele criou esse personagem que é metade homem e metade máquina.

Como foi sua relação com Detroit, da concepção até o lançamento?

Você sabe que o primeiro filme não foi filmado em Detroit? Se não me engano, foi filmado em Atlanta. A gente filmou em Detroit também, mas a maior parte foi no Canadá, em Toronto e Vancouver. Detroit adorou o RoboCop, virou uma marca da cidade, apesar de ele nunca ter sido filmado lá, a ponto de estarem debatendo agora se vão construir uma estátua em homenagem ao RoboCop. É algo que se debate na Câmara Municipal, por incrível que possa parecer. Não é só a nossa Câmara Municipal que é maluca, a deles também é.

Como a cidade do filme pode ser comparada a Detroit real? Ela chega a ser mais perigosa que cidades brasileiras?

Vou dizer pra você exatamente o que eu fiz em Detroit. Me hospedei em um hotel chamado MGM Grand. Embaixo, tinha um cassino. Aí eu desci uma noite e apostei cem dólares num jogo de black jack, vinte e um. Aí eu ganhei 900 dólares. Então nem o cassino de Detroit é bom. Cara, é uma cidade surreal. Está sucateada. É uma cidade cujo número de habitantes diminuiu violentamente porque a indústria automobilística não contrata mais. Todo o trabalho foi exportado pra outros países. A gente mostra isso no filme: nosso RoboCop não é feito nos EUA, ele é made in China. Detroit sofreu muito com isso. Eu andei por Detroit e vi uma cidade realmente sucateada, bairros vazios, casas abandonadas. É aterrador andar por lá.

Você acha que a polícia, enquanto força repressiva, é uma instituição anacrônica e ultrapassada? Há quem defenda, por exemplo, o fim da Polícia Militar…

O Capitão Nascimento diz, no Tropa de Elite 2, que a PM do Rio de Janeiro tem que acabar. Entre as pessoas que defendem o fim da polícia está o Capitão Nascimento, um ícone policial. A instituição não é qualquer organização. Qualquer sociedade que passa de tribal para uma de estado, historicamente, desenvolve algum tipo de organização policial. É um fato. A polícia não é um detalhe de uma sociedade. Não existe sociedade moderna em que não exista polícia. Existe polícia nas sociedades comunistas e capitalistas. A polícia é uma condição de existência do estado. Isso é um fato, não é uma opinião. Ao olhar para uma sociedade, ao tentar entendê-la, seja a Dinamarca, a Holanda ou a Coreia do Norte, uma maneira rápida de fazer uma imagem dessa sociedade é olhar pra polícia. Quando você olha para a do Rio de Janeiro, do Recife ou de Pernambuco, vê tantas mazelas que ela já te aponta para uma sociedade com problemas sociais graves. A análise da administração da polícia é essencial. Dizer se ela deve acabar é uma posição bastante utópica e difícil, pois não aconteceu em lugar nenhum do mundo.

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