Brasília-DF,
25/JUN/2017

'Alemão' reúne grande elenco em filme que mostra primeira instalação de UPP

O cineasta brasiliense José Eduardo Belmonte comanda projeto integrado às aspirações recentes do cinema nacional: fazer denúncia com entretenimento

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Yale Gontijo Publicação:14/03/2014 06:00Atualização:13/03/2014 14:36
Cena de Alemão: a ocupação de uma das áreas mais perigosas do Rio (Paprica Fotografia/Divulgação)
Cena de Alemão: a ocupação de uma das áreas mais perigosas do Rio

Uma pequena diferença de abordagem diferencia Alemão dos demais títulos brasileiros saídos do ciclo de favela. O roteiro de autoria de Gabriel Martins, um dos componentes do coletivo mineiro Filmes de Plástico, opta por uma aproximação psicológica em constante afunilamento de emoções.

O traficante que controla as ações do “movimento” na região do Complexo do Alemão, Playboy, interpretado por Cauã Reymond, é o rei do tráfico no momento da ação pacificadora que reuniu Exército e forças policiais no morro.

Playboy sabe da queda iminente, mas concentra sua obsessão na caçada a cinco policiais do serviço de inteligência infiltrados no morro — Caio Blat, Gabriel Braga Nunes, Marcello Melo Jr., Milhem Cortaz e Otávio Müller — obrigados a se esconder em um subsolo até que tudo se acalme.

Aprisionados em um porão, os cinco precisam definir uma forma de sair com vida da guerra de pacificação, ante o abandono institucional a que foram submetidos pela força policial.

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Duas personagens femininas condensam o drama de várias mulheres jovens da favela, cujo destino não pode ser diferente da fuga ou da viuvez, depois que os maridos e namorados são mortos ou as abandonam.

Em oposição às figuras do herói sem heroísmo, está a faxineira Mariana inserida sem querer nesta espécie de bunker improvisado e que serve como contraponto feminino de um mundo dominado por machos.

Sua intérprete, a atriz brasiliense Mariana Nunes, vem se destacando no cinema nacional desde A febre do rato, de Claudio Assis. A ex-aluna da Faculdade Dulcina de Moraes entrega uma atuação comovente.


No asfalto, distante do morro, o policial interpretado pelo ator Antônio Fagundes engrossa o ciclo de personagens que discutem supostas paternidades, como ele mesmo desempenhou na novela global Amor à vida e no terror Quando eu era vivo, de Marco Dutra.

Desenhando formação estética e estrutural próximas aos faroestes de John Ford e reduções claustrofóbicas parecidas com o cinema de Sidney Lumet e John Carpenter, o cineasta brasiliense José Eduardo Belmonte funde gêneros cinematográficos num projeto de cinema integrado às aspirações recentes do cinema nacional: fazer denúncia social com entretenimento. Uma história bem contada.

 (Paprica Fotografia/Divulgação)
Três perguntas - Cauã Reymond

Por que você escolheu o papel do bandido depois de uma galeria de mocinhos?

Quando me chamaram para fazer Alemão, eu faria o papel do policial e aceitei. Porém, o ator que faria o bandido não pôde fazer o papel por problemas de agenda. Liguei e pedi para substituí-lo. Primeiro, não queria repetir o papel de dois policiais seguidos (Cauã será um policial no seriado A caça). E, depois, queria me sentir desafiado como ator.

Como você construiu o personagem de vilão do filme?

Passei alguns dias morando na casa do Smith (MC de funk que participou como ator no filme). Eles me ajudaram muito. Conheci toda a família dele, visitamos as casas onde viviam os chefões do tráfico, visitamos muitos lugares. Eu trabalhei o Playboy para ser compulsivo. Se passar um cigarro na frente dele, ele fuma. Um charuto, ele fuma, um cigarro de maconha. Ele usa tudo. Eu queria que o mundo dele começasse a ruir e a postura mudaria ao longo do processo e ele ficando cada vez mais compulsivo. Era o peso do personagem.

A ideia inicial das UPPs era fazer uma ocupação policial que seria a primeira demarcação da presença do Estado nas comunidades. Você conseguiu sentir essas mudanças nas comunidades que visitou?

As UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) ocuparam algumas comunidades de maneira muito positiva. Em outras, nem tanto. Nas comunidades que visitei não deu para perceber a chegada do Estado além da segurança pública. A gente sabe que o tráfico não acabou. Houve apenas um deslocamento, com uso de armas um pouco mais restrito. Não dá para dizer que a atividade ocupa um lugar mais forte ou mais fraco porque a dependência química não diminuiu. Eu gostaria de ter sentido a presença do Estado nesses lugares, mas acho que ainda não chegou.

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