Brasília-DF,
15/DEZ/2017

Filme sobre Joãosinho Trinta tem roteiro marcado pela superficialidade

A vida de um dos maiores gênios do carnaval chega à telona em história banal como o de um conto de fadas

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Yale Gontijo Publicação:14/11/2014 06:00Atualização:13/11/2014 15:58
Matheus Nachtergaele não imprime vigor à interpretação de Joãosinho Trinta
Matheus Nachtergaele não imprime vigor à interpretação de Joãosinho Trinta

O principal problema das cinebiografias brasileiras, em geral, é a síndrome de Roberto Carlos, termo usado aqui em alusão à proibição de obras contendo temas desconfortáveis a seus protagonistas. A principal implicação nessa opção é a superficialidade. Com a enorme quantidade de estreias de filmes deste tipo nos últimos anos, o cinema nacional mostra estar a milhas de distância dos títulos similares feitos no exterior.

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Só para citar um exemplo: Minha vida com Liberace traçava a biografia do pianista e apresentador Liberace, o rei do entretenimento na televisão americana nos anos 1960. Aquilo que todo mundo desconfiava mas não se ousava dizer à época nos Estados Unidos foi tratado com naturalidade numa recente película lançada sobre o entertainer: Liberace era gay e gostava de ser relacionar com homens muito mais jovens.

No filme, os atores Matt Damon e Michael Douglas desempenham cenas quentes de sexo. Isso em um longa feito para a tevê. Nas salas escuras, nossas produções escondem variáveis de seus personagens, quase sempre retratados como seres lineares.

O recorte de Trinta, focado na trajetória de Joãosinho de migrante nordestino a rei do carnaval do Rio de Janeiro (o filme é focado na construção do primeiro desfile dirigido pelo carnavalesco, no Salgueiro) se assemelha ao modelo narrativo de um conto de fadas.



Paulo Machline , diretor e roteirista, trata seu protagonista como uma Cinderela saída do Maranhão para conquistar o reino da Sapucaí. A projeção inteira se esmera em esconder qualquer pretensa mancha em sua biografia. O roteiro da ficção enfraquece, inclusive, passagens públicas e feitos importantes do carnavalesco: a revolução promovida por Trinta no carnaval do Rio de Janeiro é enorme. São emblemáticos o enredo Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia (feito para a Beija-Flor em 1989) e a censura à estátua alegórica do Cristo mendigo encoberto por um pano exibido rapidamente no fim da projeção.

Matheus Nachtergaele — o intérprete de Trinta e chamariz do elenco — há tempos deixou de responder aos estímulos básicos de seus papéis. Nessa fita, está mais evidente a zona de conforto em que o ator tem repousado. Não se vê na interpretação qualquer esforço para apresentar “Joãosinho Trinta por inteiro”.

Em compensação, os atores iniciantes apresentam atuações feitas para levantar as arquibancadas. A atriz brasiliense Mariana Nunes, destacada desde Alemão (filme do conterrâneo José Eduardo Belmonte) e no pernambucano Febre do Rato, exibe uma das melhores atuações da fita. Pena que o personagem da rainha de bateria, Isabel, desfile com timidez em parcas aparições. Outro que se agiganta na tela é Fabrício Boliveira (Faroeste caboclo), como o faz-tudo da Escola do Salgueiro, Calça Larga.

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