Brasília-DF,
22/AGO/2019

Documentário 'As cores da serpente' retrata grafite nos Murais da Leba

O cineasta baiano Juca Badaró mostra o processo de criação dos grafites feitos neste ponto turístico do país

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Adriana Izel Publicação:22/03/2019 06:01Atualização:21/03/2019 16:24
Intervenção artística nos Murais da Leba, na Angola, é o mote do documentário (Juca Badaró/Divulgação)
Intervenção artística nos Murais da Leba, na Angola, é o mote do documentário
 
O documentário As cores da serpente, do cineasta baiano Juca Badaró, retrata o processo de criação dos grafites feitos por artistas africanos nos Murais da Leba, uma estrada histórica com cerca de 20 km que corta Angola e que se tornou ponto turístico do país.

As artes consistem em 6 mil metros quadrados de extensão e mostram o trabalho do Coletivo Murais da Leba, composto por 27 grafiteiros da África. Tudo isso é mostrado com muito simbolismo, já que a intervenção artística dialoga com a história do continente africano e teve um papel essencial na vida dos jovens artistas.
 
 
O nome do filme, inclusive, faz uma menção a como os moradores se referem à estrada: serpente, que é também vista no candomblé como símbolo de renovação, exatamente o que a intervenção artística fez para o local. Isso também é muito bem retratado no longa-metragem, que aposta em histórias de personagens, na disseminação da cultura africana e em uma linda fotografia, com muitas cores.
 


Entrevista / Juca Badaró, diretor

O que te motivou a contar a história dos jovens grafiteiros em Angola no documentário As cores da serpente?

Conheci o Coletivo Murais da Leba (grupo de artistas responsável pela pintura da Serra da Leba) em 2015, quando morava em Luanda e trabalhava para o governo de Angola. Nosso primeiro encontro aconteceu em um tradicional Centro Cultural de Luanda: o Teatro Elinga. A partir desse primeiro contato, fiquei muito sensibilizado com a proposta daqueles jovens artistas e resolvi fazer uma viagem junto com eles até a cidade do Lubango, capital da Huíla, sul do país. Eu e Renata Matos, produtora do documentário, viajamos juntos e levamos equipamentos para registar os primeiros trabalhos de pintura na Leba. Ao chegarmos lá, nos deparamos com a grandiosidade do projeto e com a ousadia daqueles artistas, que não tinham apoio do governo ou de empresários. Fiquei ainda mais entusiasmado quando conheci o idealizador e diretor do Coletivo Murais da Leba, Vladimir Prata, que nos deu apoio total durante os dias em que ficamos na Serra da Leba. Depois dessa primeira viagem, vieram muitas outras. Fomos gravando as intervenções e os depoimentos dos artistas que participam do coletivo. O documentário foi nascendo aos poucos, a princípio apenas gravávamos sem saber exatamente no que isso iria dar. Pra mim, a principal motivação foi perceber que eles faziam grafite em Angola assim como nós fazíamos cinema no Brasil: com muito amor e vontade. 


Quais foram os desafios para chegar até essas histórias e também para filmar o longa-metragem?

O principal desafio foi, realmente, fazer o filme sem recursos financeiros. Como morávamos em Luanda, havia um custo para realizar esse deslocamento da capital angolana até a cidade do Lubango, de onde partíamos para a Leba. Durante o processo, não pudemos estar presente em algumas pinturas que foram feitas. Mas tanto o diretor Vladimir Prata, quanto o diretor artístico Thó Simões conseguiram fazer os registros e muitas dessas imagens, feitas por eles, entraram no corte final do filme. Ao final de tudo isso, tínhamos mais de 10 horas de gravação. De volta ao Brasil, em 2016, tive de assistir a todo esse material e selecionar aquilo que seria essencial para contar a façanha de pintar os murais da Serra da Leba, a maior intervenção artística a céu aberto do continente africano. 

Além do enredo dos grafiteiros, o filme traz um intercâmbio cultural mostrando a história da Angola em si. Você precisou fazer uma pesquisa para chegar até personagens que pudessem chegar a esse aspecto?

Abrimos o documentário com um ritual dos Mucubais, etnia que vive na região da Serra da Leba, sul de Angola. A liturgia, nunca antes registrado por uma equipe de cinema, é conhecida como “Ekwendje-efico”, uma espécie de rito de passagem das jovens Mucubais que entram na puberdade. Rituais como esse, que exaltam a tradição dos povos originários deste país africano, são a grande inspiração para os jovens grafiteiros de Luanda, protagonistas do documentário. A maior parte das obras que compõe o mural há sempre uma referência aos povos originários, às etnias próprias de Angola, aos costumes e tradições. Para isso, fizemos uma pesquisa com historiadores e jornalistas culturais que conhecemos em Angola, além de contar com a ajuda da jornalista e historiadora baiana, Rai Trindade, que nos ajudou a enxergar essa cultura com um olhar o menos etnocêntrico possível. 

Para você, qual é a principal mensagem em As cores da serpente? E como o público brasileiro poderá se relacionar com essa história?

É difícil definir qual a mensagem do documentário. Penso que cada pessoa que assiste pode ter um entendimento próprio, uma recepção diferente. Pra mim será sempre uma homenagem que presto ao país que tanto me acolheu, a uma cultura que aprendi a amar e, sobretudo, perceber que nós, baianos, devemos muito aos angolanos por nossas tradições, nosso candomblé de nação Angola, nossa música, nossa culinária. Acredito que a contribuição do filme para o público brasileiro também deve caminhar nesse sentido: o de mostrar que nós, brasileiros, também carregamos muito daquilo que, em vias de regra, costumamos negar. O Brasil sempre negou as raízes africanas. Até hoje nega por meio do racismo estrutural e acadêmico. Se o filme trouxer um mínimo de debate nesse sentido, já me dou por satisfeito. 

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