Brasília-DF,
15/OUT/2019

Crítica: Almodóvar revê parte da vida em novo drama com Antonio Bandeiras

'Dor e glória' é o nome da festejada fita de Pedro Almodóvar, que chega às telas de cinema com ótima atuação de Antonio Banderas

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Ricardo Daehn Publicação:14/06/2019 06:00Atualização:13/06/2019 16:16
O novo filme de Almodóvar traz desentendimentos entre o cineasta Salvador (Antonio Banderas) e o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia) ( Universal/Divulgação)
O novo filme de Almodóvar traz desentendimentos entre o cineasta Salvador (Antonio Banderas) e o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia)
 
 
Na poesia dramatúrgica orquestrada cada vez com mais propriedade pelo diretor Pedro Almodóvar, ele alça voos crescentemente ousados, e acredite, consegue tirar rima das primeiras experiências como cineasta, mesclando as memórias de elementos nada convencionais: da brisa de verão passando pelos cheiros de jasmim, e urina. Nesta insuspeita mistura, um personagem, em muito autobiográfico, lembra das sessões de filmes projetados num paredão de rua de vilarejo, com exibições marcadas por sensações olfativas e táteis. No âmago, o longa Dor e glória — estrelado por Antonio Banderas, Asier Etxeandia, César Vicente e Leonardo Sbaraglia, com as participações afetivas de Penélope Cruz, Cecilia Roth e Julieta Serrano — trata de reconciliação, ao escorar todo enredo na figura do cineasta Salvador Mallo (Banderas).
 

Não há rancor, como dito até mesmo por personagens. Numa revisão do passado, a partir da proposta de uma filmoteca reprisar criações dele, Salvador se julga “ignorante” de muitos temas e, se assume limitado, fisicamente, pelo acúmulo de úlceras, enxaquecas e asma. Tudo isso, descontadas “as dores da alma” (tema recorrente no genial Ingmar Bergman) que ele sente. Acaso, solidariedade, rotina escravizante (relacionadas não apenas a medicamentos, mas a drogas) e o relato de um impulso sexual que formatou “o primeiro desejo” fazem parte do trajeto do cineasta representado por Banderas (premiado melhor ator em Cannes). Encabeçando reencontros — com a mãe (em interpretações alternadas de Penélope e Serrano) e com antigo desafeto, o astro de seu primeiro filme, Alberto (Etxeandia) —, Salvador avança na trama.

Afugentado do trabalho com cinema, o protagonista vai galgando via-crúcis absolutamente almodovariana: reconsidera eventos passados, com décadas de hiato temporal; percebe o sofrimento “uma boa escola” e retoma inspiração e vigor autoral, ao ser realimentado no contato com obras de arte — nelas é que se vê fortalecido. Os espectadores se veem “curados”, por tabela: são ouvidas, em cenas, músicas como La vie en rose (por Grace Jones) e Come sinfonia (com a cantora Mina), além de brotarem na telona imagens do clássico Clamor do sexo (de 1963, com Natalie Wood e Warren Beatty, no auge) e, no filme, ainda ecoa um vínculo de Torrente de paixão (1953), com Marilyn Monroe entoando Kiss.
 
 

Na rota revisionista delineada por Salvador, entram infinitas viagens, que vêm bem a calhar, visto que Madri é citada como “um campo de mina”, no rescaldo da ditadura de Francisco Franco. Na mesma rota para a vida do fissurado cineasta — ocasionalmente, um desesperado usuário de drogas — cabe (a piada, séria) dita pelo amigo Alberto: “Hoje em dia entregam em casa, como se fosse pizza”. Sendo a água um elemento cênico que incendeia em Salvador o amor pela sétima arte, o diretor de Dor e glória cerca com objetividade o paralelo, recorrente, entre água e sexo. Numa das mais potentes cenas do longa, o pedreiro Eduardo (César Vicente), inserido na família do ainda pequeno Salvador (o excelente ator mirim Asier Flores), perpetua a associação sexual — o impacto só não é maior por causa do golpe da metalinguagem explicitada no ato final de Dor e glória (novamente, Almodóvar alia encantamento a cinema).

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