Brasília-DF,
21/SET/2019

O avesso da ressaca: 'Bacurau' convida espectadores para refletir

Filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles levou prêmio em Cannes

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Ricardo Daehn Publicação:30/08/2019 06:01Atualização:29/08/2019 15:45
Bacurau: Sangue sobre um sertão bastante aguerrido (Victor Juca/Divulgação)
Bacurau: Sangue sobre um sertão bastante aguerrido

Um terrorismo bem sondável e instaurado no Nordeste brasileiro convoca à reflexão em Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Drones que sobrevoam, com sol a pino, demonstram que algo de grave se passa em terreno nacional. Avizinhado da inflamável Amazônia, que move a cobiça alheia, em plano internacional, a problemática de Bacurau, curiosamente, dada a atualidade de discussões, foi premiada na França (tendo levado o Prêmio do Júri, em Cannes).

Se no Brasil o fogo é problema, em Bacurau boa parte recai sobre a água e sua falta. A tecnologia estrangeira é bem ressaltada no filme que traz estrelas internacionais do quilate de Sônia Braga e Udo Kier. Mas engana-se quem visualiza uma comunidade simplória, sob jugo de desmandos e politicagem. Não há lacuna de autoridade, ao menos moral, no amalgamado de tipos interpretados por Bárbara Colen e Jr. Black, entre muitos outros personagens. Mesmo morta, Carmelita (Lia de Itamaracá) — a personagem que puxa o enredo — deixou herança: alinhavou tentáculos de saberes e coordenou lideranças.
 

Justiceiros, alianças escusas, prostíbulo, opressão, diversões carnais e explorações seculares pesam no violento filme, em que resistência física e sensos de unidade de um grupo social, junto com teor crítico fazem a diferença. Entre xamãs e a soberba de forasteiros e traidores (casos dos personagens de Thardelly Lima, um político defasado, e dos forasteiros Karine Teles e Antonio Saboia), um circo à la Glauber Rocha se arma. Uma expedição cinematográfica em que o inimigo se compraz, sem aparente razão, por mero comando de destruições, arregimenta o íntimo dos abrasileirados caubóis de Bacurau.

Esmagado mesmo, em toda trama, será o preconceito contra o Nordeste (até dia desses, insuflado). Aliás, numa das cenas mais divertidas do filme, um binóculo é acionado, a fim de melhor escrutínio da branquidade de alguns personagens. Subestimados, os bacurauenses, definitivamente, conhecem o terreno em que pisam.
 
 

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