Brasília-DF,
20/NOV/2019

'Doutor Sono' carrega o peso de continuar 'O Iluminado'

Ciente das referências que são quase clichês de cinema implementados justo pelas adaptações de livros do autor, o diretor Mike Flanagan tropeça, ao longo de 'Doutor Sono'

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Ricardo Daehn Publicação:08/11/2019 06:02Atualização:07/11/2019 19:36
 (Warner Bros./Divulgação)

 
Caso você nunca tivesse associado o conteúdo do clássico O iluminado (1980) com vampiros e a busca por eternidade, comece a ligar os pontos. São eles que movem boa parte do novo filme assinado por Mike Flanagan, Doutor Sono, derivado daquela obra de cinema de Stanley Kubrick e que, pela vez, saiu da mente criativa do escritor Stephen King. Uma caravana de marginais representada em Doutor Sono, por meio ritualístico, empreende uma perspectiva de longa posteridade, abastecida pelo uso das cinzas de jovens. A menina Violeta (no que parece um arredo de It, cabendo sublinhar que se trate de outra obra literária de King), logo na partida da trama, se vê enredada por Rose Cartola (a deslumbrante Rebecca Ferguson). Um aliciamento, com fundamentos na magia, é estratégia cruel à mão de Rose e seus amigos, em Doutor Sono.

A reprodução de um trecho de desenho animado da turma do Pernalonga, na telona, situa elementos a serem explorados junto ao público: "agonia, agonia!". A energia do Doutor (o "doc") Danny ("doc" vem dos desenhos é traduzido como "velhinho"), o protagonista, vem do estado especial em que ele vive, sempre muito "mais iluminado" do que os demais. No desenvolvimento da narrativa, joga contra ele um denso passado de alcoolismo. Como todos já notaram, Danny é o filho do personagem de Jack Nicholson em O iluminado. Na brecha para o ajuste dos poderes de Danny, Doutor Sono desvia da homenagem ao filme Casablanca (que aparece em quadro), adotando um registro de referências de cinema que remetem ao emprego da telecinesia em X-Men e à degradação física dos tipos vistos nas aventuras ao estilo de Piratas do Caribe.

Num assumido processo de fuga dele mesmo, Danny se estabelece na pequena cidade de Frazier, e consegue um emprego em que zela pelo "verdadeiro sono reparador" de idosos. O ato de, constantemente, relacionar-se com a morte, transforma por completo Danny. Se traz escolhas visuais de gosto duvidoso (como os olhos cintilantes dos vilões), o diretor acerta no tom das cenas de mutilação e de desespero (nas quais até o ator mirim Jacob Tremblay se redime da irritante participação em O quarto de Jack). Ewan McGregor é outro ileso, dado o talento em cenas como a discussão com um pai que, torturado pelo destino das numerosas bocas para alimentar, recorre a agente "apagador": a bebida tida como "remédio".
 

No cômputo final, o longa de Mike Flanagan oscila entre a homenagem (nas recriações de ambiente e nos perturbadores registros aéreos) e a apropriação indébita (a materialidade de registros mentais, em cena, beiram o constrangedor), tendo por bússola a interferência kitch, à la passeio em parque de diversões — no caso, representado pelo mais do que abandonado Hotel Overlook, terreno decisivo tanto para O iluminado quanto para Doutor Sono.
 
 

Tags: cinema

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