Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em crônica da semana, Paulo Pestana fala sobre música e gerações

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Publicação:02/10/2015 06:30
O conflito de gerações é uma invenção dos psicanalistas para ganhar dinheiro. Devo dizer que essa teoria foi formulada com a ajuda de uma cangibrina branquinha e apreciando música de qualidade; portanto, suponho que tenha algum valor científico. O ambiente era uma varanda e o moço trazia, além de um topetinho desses esticadinhos para cima como o do Tintim, um bandolim e sentou-se à mesa com um amigo que logo arrumou um violão; atacou o choro com uma personalidade desconcertante.

 

Na mesa ao lado, Carlinhos 7 Cordas — este, para quem andou no mundo da lua, é uma lenda da música brasileira, que formou fileiras com Waldir Azevedo — levantou-se e pegou logo o violão que lhe dá o sobrenome.  “Essa garotada está tocando bem demais”, disse ele, se referindo a Victor Angeleas, o rapaz do topete, perdão, do bandolim. E logo passou a definir o ritmo de choros ancestrais num estilo que teria tudo para ser antagônico.

 

Carlinhos, professor, 71 anos de idade; Victor, aluno, 26. Mas, naquele momento, eram apenas dois músicos desafiando as leis matemáticas que regem e organizam a mais livre expressão artística. Não havia ali nenhuma diferença de gerações, embora Carlinhos, da velha e boa escola, tenha uma abordagem do choro completamente diferente que a ousadia de Victor permite. Dois fenômenos, cada um a seu tempo, que se encontraram naquele espaço.

 

Victor Angeleas é desses músicos que inauguram tendências. Ali, calado, ao lado do velho professor, mostrava alguma timidez enquanto mascava um chiclete. Tinha começado a tocar ao lado de Junior, que, por falta de um acordeom, usou o violão — ambos podem ser vistos agora mesmo no seu computador tocando, por exemplo, Libertango, de Astor Piazzolla (não perca mais tempo: vá ao YouTube!).

 

E vai aí mais uma teoria: o que aproxima essa garotada de gente que percorreu tantas e longas estradas é a música ruim que se produz hoje; um pastiche, menos que um rascunho, do que a história nos permitiria. A mediocridade é tamanha que os jovens de talento não têm outra alternativa a não ser desprezar o presente, olhar para o passado e, daí, extrair o futuro.

Com todo respeito à Sua Majestade, que estava visitando nosso burgo naquele mesmo dia, mas Roberto

 

Carlos não foi páreo para a roda musical em comemoração ao aniversário de Lício da Flauta, que registrou o encontro descrito acima. O banquete musical começou com uma feijoada preparada por Lídia, e seguiu tarde e noite adentro, com um inacreditável revezamento de músicos.

 

Era tanta cobra que muita gente ficou só ouvindo. Tinha até banda de rock, que não tocou por falta de tempo. No primeiro tempo, os veteranos deram o tom, com Chico Lopes debulhando o saxofone, ao lado de José Carlos, Carlinhos, Edmar, Lício, Arapinha e outros; vieram os jovens chorões em seguida e, quando a tarde começou a cair, chegou mais uma turma da pesada: Nivaldo do acordeom, Edvaldo do Pandeiro, Cunca e Chico Assis, entre outros. Quando Fernando Lopes soltou a voz, parecia que a comemoração só terminaria quando Lício fizesse mais um ano de vida. O único conflito que restou é que os jovens foram dormir mais cedo.


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