Brasília-DF,
23/OUT/2020

Crônica da semana: Recados na parede

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Paulo Pestana Publicação:31/01/2020 06:00
Quem entra no boteco e acredita no quadrinho pendurado na parede onde está escrito que o freguês tem sempre razão não sabe nada. Essa história de lei do consumidor não pegou na maioria dos estabelecimentos congêneres do país; no boteco raiz a lei é marcial, não tem para mais ninguém além do proprietário, que muda os artigos e alíneas a seu bel-prazer.

A máxima do freguês é um clássico, mas varia de acordo com a simpatia do taberneiro que, como todo frequentador sabe, é quase nenhuma, se é que existe. Não sei bem porquê, mas faz parte da filosofia de todo bom boteco pé-sujo o maltrato ao cliente, especialmente ao mais frequente. E começa com a cara feia.

Pode ser um jeito que o camarada que fica atrás do balcão descobriu para combater o excesso de intimidade, que leva ao fiado e a outras coisas ainda mais desagradáveis para eles. Se funciona nos barcos do São Francisco — especialmente depois que o escultor Bitinho, de Petrolina, criou a assustadora figura inspirada num filme de monstro japonês — pode ser que espantem os pinguços de espírito ruim também no bar. 

Parte do problema é que o boteco é o fundão da vida. Como na sala de aula, é ali que o pessoal da bagunça se confraterniza folgadamente, o que piora em tempos como este, quando até a cervejinha está sob suspensão. Aprendemos a desconfiar da pinga misturada com etanol, do uísque from Paraguai e até do brandy com gosto de gengibre, mas birra mortal é novidade. 

O certo é que, de alguma forma, o bodegueiro prefere deixar o sujeito constrangido, quase se desculpando por estar ali consumindo, deixando seu suado dinheirinho, sustentando não apenas o negócio, mas ele próprio, o dono. 

Até pouco tempo, os quadrinhos de boteco só traziam avisos mal-humorados, cheios de não: "não jogue papel na privada", "não jogue bituca no chão" (este do tempo que podia fumar dentro do bar), 'ambiente familiar, não fale palavrão' (do tempo que palavrão era nome feio), "não cante", "quem demora no bar é vagabundo". E o pior de todos: "Fechamos às 23 horas. Não insista".

Mas de uns tempos para cá, com a chegada desses bares moderninhos, cheios de petiscos leves — "torresmo não tem, mas temos espeto de legumes" — e cerveja artesanal, a coisa mudou. Os recadinhos são engraçadinhos, polidos e educados; alguns exploram trocadilho — "minha vida é um litro aberto" —, outros são piadinhas — "depois que li que beber faz mal, parei de ler", "aqui bêbado não entra; só sai". E há os infames: "não quero ser chato, só quero cer… veja".

Alguns até conservam o espírito original do bom boteco de se manter como um refúgio, como o que ensina o que dizer se a namorada ou — pior — esposa de algum conhecido ligar: "Ele não está, nunca vi por aqui, ele não tem vindo mais"; ou a definitiva: "a namorada não deixa mais que ele fique com os amigos".

Dos antigos, o único quadrinho que ficou é o que diz: "Fiado, só amanhã".

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