Brasília-DF,
05/AGO/2020

Crônica da semana: A redenção do cheiroso

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Paulo Pestana Publicação:13/03/2020 06:06Atualização:12/03/2020 19:57
Agora que sabemos que flatulência também é cultura e, portanto, deve ser preservada, é preciso discutir o assunto sem medo da escatologia que o cerca. Até porque o pum foi tema de estudo recente feito por cientistas russos, e que esclarece todos os aspectos fisiológicos da manifestação. Óbvia conclusão: todos nós soltamos, não adianta negar. E poderíamos completar: não deixa a palma da mão amarela, como se acreditava na adolescência.

A origem culta vem do latim flatus, sopro; nos tempos escuros da Idade Média, foi considerado um sinal dos infernos, talvez por causa do cheiro de enxofre exalado pelos mais glutões; e isso porque, naquela época, os europeus ainda não conheciam a batata-doce.

Martinho Lutero, protestante que dividiu os cristãos ao se insurgir contra os apostólicos romanos, descobriu propriedades exorcizantes: chegou a recomendar que os fiéis soltassem bufas na cara do diabo para afastá-lo. Não esclareceu bem como reconhecer o tinhoso nem como sentir a presença dele; o importante era o pum.

O fedorento também provocou guerras, como na época em que os romanos invadiram Oriente Médio e, durante uma cerimônia pascal em que os judeus foram impedidos de entrar, um legionário virou-se e soltou uma caprichada e barulhenta pernacchia, ofensa que provocou quatro anos de conflitos.

Os italianos de hoje, mais comportados, continuam usando a pernacchia para ofender, mas agora pela boca, imitando o som de uma scoreggia. Sabe-se que um ser humano normal solta, em média, 17 cheirosos por dia — afinal, são 1.400ml acumulados. Ainda assim, uma solitária ventoinha foi o motivo para que a rainha Elizabeth, a primeira, deixasse de se casar, porque o pretendente deixou escapar um pufe quando se abaixou para os salamaleques de praxe.

Logo essa rainha, conhecida por ter, supostamente, provocado um incêndio do palácio depois de se aliviar perto de uma lareira. Provavelmente achou que a união gastrointestinal seria demais para os súditos.

Não é assunto novo. Vem de 1751 o primeiro tratado erudito sobre o tema, registrado no livro A arte de peidar, de Thomas-Nicholas Hurtaud, ainda hoje à venda nas boas casas do ramo (de livros, naturalmente).

De uns tempos para cá, como lembrou nossa atriz-secretária, o pum passou a fazer parte do repertório dos humoristas, embora o traque não tenha nada de engraçado, assim como não há nada de jocoso no arroto, contramão da bombarda. Mas há quem ganhe dinheiro com isso, como Mr. Methane ou The Farting Man (traduzindo: o peidorreiro), que se apresenta, mascarado, solando canções como Danúbio azul em auditórios britânicos.

O pum também é um reconhecido elemento dramático usado no cinema. Pode ser ouvido contracenando com Meg Ryan e Billy Crystal em Harry & Sally, ou com Samuel L. Jackson, que mata um sujeito que abriu o gás, em Pulp fiction. Ou ainda em O poderoso chefão, quando avacalha um jantar em família.

Há também casos e piadas, essas aos montes. Portanto, não há o que reclamar da nossa titular da Cultura. O pum está entre nós; o problema é o hircismo.

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