Brasília-DF,
17/OUT/2017

"Música não é planta". Confira a crônica sobre The Voice Brasil e a extinção do modo brasileiro de cantar

Paulo Pestana investiga as razões por trás da falta de criatividade de novos cantores que, influenciados por estrangeirismos, deixam de lado as contribuições da MPB

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Paulo Pestana Publicação:11/12/2015 06:15Atualização:10/12/2015 17:41
Jurados do programa exibido pela TV Globo (Carla Z Notícias/Divulgação)
Jurados do programa exibido pela TV Globo

Eis a teoria: o programa The Voice Brasil, que vem sendo exibido pela TV Globo, é hoje o maior inimigo da música popular brasileira, se é que ela ainda existe, porque eu não tenho ouvido nada. E não apenas porque os competidores buscam canções estrangeiras para não deixar nenhuma dúvida de que são apenas pastiches, mas porque está se instituindo no país uma nova forma de cantar, demolindo décadas de uma gloriosa história.

Eu procurei de Orlando Silva a Roberto Carlos, de Araci de Almeida a Elis Regina, e não encontrei registro que justifique a inclusão de tantos e variados melismas, beltings e drives nas interpretações. Perguntei para quem entende do riscado e a conclusão foi a mesma: essas piruetas vocais não têm nada a ver com a nossa música; enquanto a canção dos Estados Unidos foi forjada nos cultos religiosos, a nossa tem o batismo profano das ruas.

O melisma é um recurso vocal que usa várias notas musicais numa única sílaba, estendendo o trecho cantado. Surgiu ainda nos anos 600, com o cantochão, a música sacra uníssona, como recurso para adequar a métrica do texto à música. Com o tempo, a polifonia ampliou o alcance do coral gregoriano e esse recurso, já nos cultos pentecostais e com a contribuição dos ritmos de origem africana, chegou aos nossos dias. Na música negra norte-americana os melismas são obrigatórios.

Não é uma questão de obedecer à linha evolutiva da música brasileira. Bobagem, até porque não há nenhuma música popular no mundo que sofreu tantas influências estrangeiras quanto a nossa. Noel Rosa, Braguinha, Ary Barroso e turma muitas vezes davam um tempo no samba para explorar foxes, boleros, tangos e... Valsas, muitas delas; Chico Buarque já fez rock, Gilberto Gil fez reggae, Caetano cantou tango. Os arranjos de Pixinguinha vão além das fronteiras; os de Radamés Gnatalli abriram caminhos até para os gringos.

Portanto, o problema não é a influência, mas o que se faz depois que ela se instala. No caso dos melismas e drives vocais, eles estão influenciando até cantores de gêneros naturalmente incompatíveis, como o samba e os sertanejos. Se acontece o mesmo com as versões do programa em outros cantos como Angola, Tailândia, Polônia ou Holanda, pouco importa; a música popular desses países é satélite, periférica.
Música não é planta, mas vamos ao cerne: a proclamada MPB sempre primou pelo casamento de letra e melodia; em alguns casos, como Dorival Caymmi, de sílaba e melodia. O ajuste sempre foi tão perfeito que não há espaço para excessos — as firulas, como os bons dribles de futebol, têm de ser executadas no espaço de um lenço.
Na prática, The Voice Brasil cria uma geração de cantores para bodas e púlpitos, músicos com pouco ou nenhum compromisso com a sofisticação ou com a criação. Como os maus pastores que acreditam que precisam gritar para serem ouvidos pelo Senhor, são cantores que soltam a voz como camelôs. Mas, ao contrário do que se prega antes do rapa chegar, o caso requer talento e habilidade.

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