Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica da semana: aventuras quase urbanas

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Paulo Pestana Publicação:23/09/2016 07:00
Uma amiga recém-aposentada descobriu as propriedades revigorantes do Lago Paranoá. Disposta a dar fim no sedentarismo, todos os dias ela entra no caiaque e esquece do mundo; no íntimo, vai cantando a musiquinha que embalou tantos sonhos infantis — “rema, rema, remador...” — e segue se deslumbrando com a paisagem que é renovada a todo instante com pássaros e flores que se revezam mesmo na temporada inclemente da seca.

Dia desses, no entanto, o deleite transformou-se num princípio de pavor. O pessoal do clube avisa sempre: não saiam da raia. Não há um limite demarcado propriamente, mas há uma convenção do que seria uma área navegável, que todo mundo deve respeitar. Nesse dia, no entanto, o devaneio a levou mais longe e, de repente, ela se viu perdida.
 
As margens ainda estavam à vista, ela tinha os remos nas mãos e não havia furo no caiaque. Portanto, embora à deriva, tinha algum controle da situação. Mas e daí? Ela ainda não se acostumou a ler os pontos cardeais ao nível da cota 1.000, que é a demarcação original do espelho d’água do Lago Paranoá. Estava miseravelmente perdida, sem saber para que lado remar. A garrafinha de água ainda pela metade garantia algum tempo; mas quanto?

As horas foram passando e nada; nenhum pescador, nenhuma lancha de fiscalização. Tucanos cruzavam o barco bem alto, o que para ela era um sinal de mau agouro pior que um urubu. Outros passarinhos voavam ainda mais alto. Antes que ela tentasse falar com alguma maritaca, no entanto, avistou uma construção que deu a ela uma noção da direção a seguir. Arrebentou os braços, mas saiu da enrascada. E não quer mais arriscar; saiu dali direto para uma loja de R$ 1,99 comprar uma bússola.

A falta do que fazer provoca situações inusitadas — como é dito: mente vazia é a oficina do diabo. De férias, mas sem poder sair de Brasília, um amigo quis afastar o tédio e pegou uma velha espingarda para caçar e fugir da fiscalização do Ibama. Alguém tinha dito a ele que era fácil pegar um tatu gordo na seca, quando ele sai da toca para capturar formigas e cupins, que são a base da alimentação deles.

E lá se foi o improvisado caçador rodar pelas estradas vicinais entre Brazlândia e Padre Bernardo com um companheiro de infortúnio que, como Sancho Pança, tinha um pouco mais de juízo. Mas não muito. Ele já tinha participado de uma caçada a tatu, mas não tinha a menor ideia de como capturar o desdentado animal.

A noite caiu e, quando deram fé, estavam no meio do nada. Não sabiam para que lado fica Trajanópolis, Brazlândia ou Mimoso. Nenhuma referência; no silêncio de fim de tarde ouviam o canto gaguejado de uma siriema e o clangor do badalo de boi. E já se conformavam em dormir no carro quando foram socorridos por um homem a cavalo e conseguiram o rumo para Brasília. Antes, pararam numa churrascaria. Quem não tem tatu, vai de boi mesmo.

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