Brasília-DF,
21/OUT/2017

Crônica da semana: o poeta penetra

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Paulo Pestana Publicação:21/10/2016 06:45
Ainda Bob Dylan. O prêmio Nobel foi criado pelo inventor da dinamite, mas ninguém esperava uma explosão tão ensurdecedora, como a que acompanhou o anúncio da vitória do velho bardo folk na premiação de literatura. É um penetra?

Ego de músico só é menor que o de escritor. Todos se julgam o ó do borogodó. Alguns escritores tradicionais ficaram ofendidos; estão amarrados aos cinco séculos em que a literatura esteve aprisionada nos livros impressos.
 
Beletristas chegaram a ironizar. “Preferia que fosse o Almir Guineto”, foi o chiste de um editor tradicional e careta. O pessoal de menos talento é o mais radical. São os sindicalistas da literatura, defensores do umbigo da categoria.
 
Dylan tem poucos livros. Mas como não chamar de poeta um camarada que escreveu versos assim: “A Primeira Guerra Mundial, rapazes, decidiu nosso destino/ A razão pela qual lutar, eu nunca entendi/ Mas aprendi a aceitar, e a aceitar com orgulho/ Pois não se contam os mortos/ Quando Deus está do seu lado”.
 
Eu me recolho na ignorância; de poesia não entendo lhufas, de Dylan sou fã. Melhor consultar um especialista, como Manoel Henriques, que aprendeu violão só para tocar Blowin’ in the wind. Manoel é jornalista, dos bons; e quando Dylan fez 60 anos subiu num palco no setor dos condomínios para reverenciar o ídolo.
 
Quando o irmão contou sobre o Nobel, achou que era trote. Checada a verdade, foi escreveu: “O primeiro livro que comprei com meu próprio suado dinheirinho foi Tarantula, a estreia de Bob Dylan na literatura. Eu tinha 16 anos, o ano era 1971, e eu morava em Kensington, Maryland. Meu pai, militar, fora transferido para a Comissão Militar Brasileira, em Washington, DC. Descolei a grana aparando a grama de vizinhos. Estou com o livro agora na minha frente, edição em capa dura da MacMillan. Custou US$ 3,95.
 
Bob Dylan merece? Um pedaço de mim pula tal qual macaca de auditório a berrar “ele merece, ele merece, ele merece”. Outro pedaço, eivado de dúbia sapiência sexagenária, desconfia. Que p.... deu na Academia para dar o Nobel para ele?
 
Tenho por regra desconfiar dos juris, seja de que gênero, número ou grau. Júri popular, do Oscar, do Chacrinha, o que for. Juntar gente para julgar um semelhante acho atividade temerária e duvidosa, seja para o prêmio ou a punição.
 
Folheio Tarantula. Aos 16 anos de idade, o que posso ter pescado daquela teia de aranha? Tarantula é um emaranhado de textos curtos, cheios de citações e alusões que eu só identificaria mais tarde. E muito humor, aquele humor cheio de veneno destilado contra aqueles tempos bicudos de Vietnã e Watergate e sonhos capados. Um humor que sabe rir de si mesmo e dos vizinhos, de perto e de longe.
Ao humor farpado da teia de Tarantula, eu brindo: Salve, Bob!!”
 
Manoel Henriques é fã incondicional, mas lúcido. Eu digo: beletristas, literatos, editores, rendam-se. A poesia se libertou das páginas. E como cantou Dylan, “e não critiquem/ O que não podem entender/ Pois os tempos estão mudando”.

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