Brasília-DF,
22/JUN/2017

Crônica da semana: A volta do fariseu

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Publicação:09/12/2016 06:45
Há quem acredite que homem não gosta de fofoca. Mas deve ser mais um efeito das mudanças do planeta ou sempre foi assim e o povo escondia. A noite ia alta quando alguém falou no nome do Marra, que anda sumido do bar. Já esgotados os assuntos da semana e o uísque ainda descendo bem e sob controle, alguém falou mais uma ou duas frases sobre ele —  algo a ver com o paradeiro e com um problema de saúde.

O fariseu é um personagem que aparece em todo boteco que se preze. Muda de identidade, tem rostos e corpos diferentes, mas o espírito de porco é o mesmo e o acompanha em todas as ocasiões. É por esse motivo que o fariseu pode aparecer em mais de um botequim ao mesmo tempo, naquela ubiquidade própria dos intangíveis.

Cabe esclarecer que não é uma denominação literal, já que não tem nada a ver com religião, torá ou cabala. Na nomenclatura dos botecos, o fariseu é apenas um hipócrita. Pois ele estava ali e, como sempre, pegou a conversa pelo rabo para distribuir a malícia: “O Marra não vem mais porque está com vergonha da gente. É um picareta”. Ninguém dá muita bola para o que o fariseu fala, mas dessa vez estava atacando um confrade que não tinha como se defender. Era a tal pós-verdade ali na frente de todos.

O Marra é engenheiro, tem uma pequena empreiteira e, sem embarcar no clima da fofoca, vamos reconhecer que gosta de se jactar. Ao contrário da ratatuia, que frequenta o bar, está sempre na estica; sapato escovado, calça com vinco, camisas feitas à mão; chega sempre mais tarde e interrompendo qualquer conversa. Mas anda sumido.

Apesar do ar confiante demais, de falar alguns decibéis além do recomendável até mesmo num ambiente meio esculhambado e de declarar voto em Trump – ele nasceu num ponto perdido de Goiás, mas acha que influenciou as eleições norte-americanas – é uma boa figura, de conversa fácil, que na verdade é a única coisa que importa num bar, lugar onde todos são iguais, até quem pendura a conta.

Mas fazia tempo que o fariseu estava com o Marra atravessado. Ninguém sabe exatamente por que, mas parece que se sentiu humilhado em alguma discussão, tanto que se afastou —ninguém reclamou, nem o dono do estabelecimento que sempre enxerga o rapaz temendo uma confusão. Mas naquele dia ele estava de volta.

E não deu bola para nossos protestos; encheu o Marra de adjetivos, com afirmações desencontradas e se exaltou com quem tentava defender a pobre e ausente alma. O espírito de porco tinha baixado com especial fervor naquela noite em que o fariseu desentalou suas frustrações, até que veio a estocada final: “Vocês ficam defendendo o cara que diz que é o maioral e está por dentro de tudo. Cadê o nome dele nessa confusão de Lava-Jato? Só tem bacana no rolo e ele está de fora. É um empreiteiro de m... meia tigela”.

Pelo jeito, cadeia virou sinal de status.

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