Brasília-DF,
18/AGO/2017

Crônica da semana: Procura-se um delator

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Paulo Pestana Publicação:24/03/2017 06:05
A profissão mais popular do Brasil no momento é a de delator. Mesmo assim, a gente não encontra um só para solucionar o crime que mexe com a comunidade do Grao, bar que fica no último comércio do Lago Norte: alguém roubou o balde de prata que era usado para o transporte do gelo para as mesas.

Não é possível que nesta profusão de deduragem institucional a gente não encontre um cúmplice arrependido — ainda que seja uma contrição forjada depois de pego com a boca na botija — para solucionar o mistério. Nem os empreiteiros que frequentam o ambiente disseram nada ainda. E o gelo está sendo servido em prosaicos copinhos de plástico.
 
A nossa esperança são os advogados — e são vários ali. Só eles podem oferecer uma delação premiada, de preferência, dessas que estão virando moda, quando o sujeito fala tudo por uma mariola e um maço de cigarros sem filtro. Ou uma tornozeleira eletrônica.
 
Não se trata de um objeto qualquer, o balde. Veio da Espanha, com a mudança da família Grao para o Brasil, e foi alocado como patrimônio permanente do bar. Ou seja, carrega valor material e afetivo.
 
E dava uma certa nobreza ao ambiente. Mesmo nas mesas de plástico, o encontro do uísque importado com o gelo retirado do balde igualmente estrangeiro dava um ar cosmopolitano ao lugar.
 
Um dos comensais é mais ligado a assuntos decorativos, embora não possa ser classificado entre as 37 opções sexuais atualmente em voga (a conta não é minha, que não entendo dessas coisas, mas do aplicativo Tinder, especializado em relacionamentos — mas pelo andar da carruagem, serão muito mais em alguns anos, se o mundo durar até lá — essa conta é minha). E foi este entendido — sem trocadilho, por favor — quem primeiro chamou a atenção dos distraídos bebedores para a imponência do balde de prata.
 
É decorado com detalhes — também em prata — que o transformam numa pequena obra de arte, ainda que utilitária. Nem sempre o balde foi tratado com o devido cuidado. Embora sempre limpo e livre do pretume que costuma manchar a prata quando não polida e normalmente causada por enxofre, sofria com eventuais pancadas para que os cubos de gelo fossem liberados. Mas nunca foi amassado.
 
Era um objeto de desejo — a Baixinha, delicadamente, recusou algumas propostas para vendê-lo. Portanto, a turma já começou a analisar quem já tinha feito proposta pelo balde. São os principais suspeitos, porque, como aprendemos na literatura policial, tinham a motivação para o crime.
 
Não há câmeras no local. E é bom que continue assim; às vezes um ou outro sai tropicando nas próprias pernas, há quem avance o sinal sobre uma moça nem sempre desimpedida, provoque uma arenga — essas coisas, enfim, que fazem de um bar o microcosmo da sociedade. Ou seja: há todas as dificuldades para solucionar o caso e apontar o criminoso.
 
Mas a gente sabe, também pela literatura, que o criminoso sempre volta ao local do crime para tentar se eximir de qualquer suspeita. Estamos de olho nos inocentes.

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