Brasília-DF,
25/ABR/2017

Crônica da semana: Diretos no fígado

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Publicação:31/03/2017 06:05
O país está olhando o boi e principalmente o açougueiro com uma certa desconfiança nos últimos dias. Os vegetarianos e seus afins estão exultantes, de peito inchado, para proclamar que não comem carne, tal e coisa —  andam mais metidos a besta que funcionário da Caesb. Pois eles não sabem o que estão perdendo. Até dá pra comer talo de couve com sal e azeite para acompanhar uma cervejinha, mas não é pra toda hora. E a propósito da carne, travou-se dura disputa, mas que não tinha nada a ver com o embargo internacional, o papelão ou o destempero verbal das altas autoridades jurídicas.
 
Quando não se tem muito o que fazer, a conversa fiada sempre descamba para algum tipo de competição. Há sempre alguém querendo dar um título a alguma coisa: o melhor de todos os tempos, da cidade, ou da freguesia, que seja. E assim começou mais uma daquelas intermináveis discussões; pareciam economistas debatendo o melhor meio de promover crescimento do país —  ninguém se entende.
 
Tudo sempre começa com uma afirmação bombástica em evidente tom de provocação.
—  Ontem eu estive no Faisão Dourado e garanto que o melhor bife de fígado do mundo é servido ali.
A reação foi imediata. O primeiro a se manifestar cometeu a injúria de afirmar que nenhum fígado merece esse título, pelo fato de ser intragável. Vê-se que é um herege, que não sabe nada de culinária e muito menos de paladar. Alfredo não chega a ser um faneca, mas não tem quilos sobrando no abdome graças a pedaladas diárias, mas principalmente porque fala mais do que bebe quando a turma se junta.
O fígado acebolado é um clássico da gastronomia popular. Não sei se é estudado nas escolas que formam chefs de dólmãs, mas deveria, até para explorar mais as qualidades da carne, já que se trata de petisco nutritivo; mães e avós torturavam a petizada —  isso no tempo que educar os filhos não era crime —  obrigando a comer fígado porque “faz bem”.
 
Ocorre que o fígado tem sabor adulto, impróprio para menores; mais ou menos como a cerveja, exatamente como o jiló, não por acaso um dos principais acompanhantes da iguaria.
 
Mesmo com reconhecimento geral que o Faisão (314 Sul) serve um ótimo fígado —  acompanhado de arroz, maionese, farofa, vinagrete, batata frita e feijão-tropeiro —  houve vozes discordantes. E vozes que merecem ser ouvidas, porque o Lúcio não adquiriu a adiposa barriga comendo brócolis e couve de Bruxelas.
—  O melhor fígado que eu já comi é o do Silvio’s (114 Norte). É um bife mais alto do que o servido no Faisão e, por isso, mais suculento. E ainda vem com uma grossa rodela de cebola em cima.
 
No Silvio’s, assim como no Faisão, o fígado é servido como refeição. Daí, um terceiro defendeu o fígado servido como petisco a palito —  com jiló ou maxixe —  no Cantinho da Tia Rô, da Quituart (QI 10, Lago Norte). E a discussão continuou, claro, sem veredito. Na verdade, todos estão certos. Eu fico com os três.




Tags: crônicas

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