Brasília-DF,
18/NOV/2017

Crônica da semana: A última petista

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Paulo Pestana Publicação:28/04/2017 06:00

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A jovem senhora entrou olhando para os lados, checando rostos e com aquele olhar de 360 graus que só corujas e mulheres têm. Conhecia alguns, mas não era habitué daquele recinto eminentemente masculino. Cumprimentou a todos e aproximou-se do balcão, onde a turma se acotovela para ver o jornal da tevê.

 

É chamada de A última petista. A turma sabe que há outras e outros; ainda que cabisbaixos, resistem. Mas ela merece o título: ninguém briga e argumenta daquela maneira; principalmente, ninguém acredita no PT como ela.

 

A turma é democrática, como convém a qualquer botequim — o bom bar, vale o aposto, é um parlamento onde todos têm direito à palavra, sem aquela chatura de campainha avisando que o tempo acabou —  e ali há tolerância. Ali só se reclama dos chatos. A Última Petista chegou reclamando: “Lá vem esse Bonner”. Ela não sabe que não se atira no pianista.

 

Entre um Bonner e outro, revelações de um mundo sombrio; corrupção, propina, assaltos, espertezas —  para um filme noir só faltou um cadáver. Por enquanto. O país mergulhado num pântano fétido; políticos feridos de morte, empresários posando de heróis da pátria, com a empáfia intacta. A turma, que comenta até eliminação no Big Brother, se mantinha calada, estupefata.

 

O noticiário passou por nomes ilustres, até que o homem que tinha o país no bolso falou alguma coisa contra o Lula. Foi a gota que faltava. A última petista não se aguentou e desandou a falar, para azar dos interessados no noticiário internacional.

 

— O sistema quer destruir o Lula. Todo mundo sabe que o Chaves e o Maduro foram eleitos na Venezuela pela CIA para criar o bolivarianismo e desmoralizar a esquerda. O objetivo não é acabar com o Lula; é acabar com a esquerda — disse, fazendo um carpado mortal duplo de ideias.

 

A turma se olhava, mas não reagia. A última petista continuou a defesa: “O Aécio e o FHC querem puxar o Lula para a lama deles; estão mancomunados com esses procuradores do MP. Pode ver: todos fizeram cursos nos Estados Unidos. É a direita mundial”.

 

A última petista estava exaltada, tons acima dos quais a turma está acostumada; não parava de falar. “É o mesmo que dizer que o Brasil está em crise. Tanto falaram que o povo acreditou. Os tucanos inventaram a crise e agora quem manda na economia são os banqueiros”.

Alguém disse que o Meirelles do Temer é o mesmo Meirelles do Lula, mas foi tão baixinho que não adiantou. A gritaria continuou até que o Faixa chegou com uma nova pauta. Disparou:

 

— E pensar que a gente vota em lista fechada faz tempo: vota num fulano qualquer e elege um Odebrecht.

 

Foi a primeira vez que alguma coisa fez sentido naquela noite.

 

Mas nem isso calou A última petista. Como se estivesse disposta a mostrar que continuava em pé e desafiando, virou-se para o atendente e pediu:

 

— Me traga um pão com mortadela.

 

É ofensa grave no que ela vê como um bar de coxinhas.

 

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