Brasília-DF,
23/AGO/2017

Crônica da semana: Memória traiçoeira

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Paulo Pestana Publicação:26/05/2017 06:00
Atualmente poderia ser considerado um ato político, mas a discussão acalorada era sobre coxinhas. Não as femininas, que num passado não muito distante nos atraiam bem mais; menos ainda sobre ideologia —  assunto proibido ali, desde que dois dos nossos quase foram às vias de fato. Falávamos do quitute mesmo, aquele bolinho de massa feito à mão e recheado com carne de frango desfiada, no formato de gota.
 
Cada um recordava sua coxinha favorita, aquela que ficou na memória, mas que deixou água na boca. Algum néscio chegou a dizer que não há segredo para fazer uma boa coxinha e que são todas iguais, mas falou sozinho. “Não há mais coxinha com massa de batata, como minha mãe fazia”, alegou outro que, evidentemente, apelou. Comida de mãe não vale; estávamos falando de coxinhas que podem ser encontradas por aí, em padarias, bares e afins.
 
Hoje tem gente com mais vergonha de pedir uma coxinha no bar do que de comprar remédio para disfunção eréctil; deve-se entrar com jeito no estabelecimento, escolher o atendente com a cara mais parva e falar baixo —  “me dá uma dessa aí”, sem pronunciar o nome.
 
Mas é preciso lembrar que a coxinha —  criação brasileira —  tem origem proletária, já que surgiu nas portas das fábricas como opção mais barata para as coxas de galinha fritas que eram vendidas aos operários sem marmita na hora do almoço, e que também são mais perecíveis.
 
Houve uma unanimidade na discussão, fato raro: as coxinhas inesquecíveis pertenciam ao passado. O que leva a duas conclusões: 1, velho —  exceto o Pereira, que confessou que ainda adora o quitute —  não come coxinha; 2, a memória afetiva é traiçoeira.
 

Ninguém conseguiu apontar uma boa coxinha na cidade; o que não é sinal que o salgadinho tenha piorado, acompanhando a moral da sociedade e a (de)cadência dos políticos. É que ninguém ali —  todos fãs das coxinhas do passado —  tem comidoo quitute. O paladar mudou; e, principalmente, as coronárias estão a merecer mais respeito.
 
Despertar uma memória afetiva é acordar em decepção. Tião, por exemplo, passou anos da vida juvenil saboreando a empadinha de um posto que era parada obrigatória dos ônibus que ligavam Goiânia a Brasília. E quando parou de fazer o trajeto tantas vezes por mês, sentiu mais falta da empada do que das namoradas que espalhava pelo caminho.
 
Arrumado na vida, casado e com filhos, voltou a Goiânia. Antes da viagem, disse aos filhos: “Vocês vão comer a melhor empadinha do mundo!” E de Brasília ao posto que fica na entrada de Anápolis, falou sem parar do cheiro, do sabor, do recheio, da massa, da delícia. A filha e o filho lambiam os beiços, antecipando o deleite.
 
Vieram as empadinhas. Tião deu uma dentada, mastigou, engoliu. Ficou na segunda. A empadinha era muito ruim, das piores que ele já tinha experimentado. As crianças comeram em silêncio.
Já no carro, seguindo viagem e diante do silêncio, aquieceu: “Pode falar, filha”.
—   Na volta a gente não vai ter que comer outra empada, né, pai?

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