Brasília-DF,
17/NOV/2017

Crônica da semana: Vai para o trono?

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Paulo Pestana Publicação:02/06/2017 06:00Atualização:01/06/2017 14:28
Bem na entrada do Eixão Sul, uma placa diz mais ou menos assim: em Brasília evitamos buzinar. Pois o maestro Jorge Antunes não quer nem saber de silêncio e obediência a placas mudas; domingo passado, mais uma vez, elevou as literalmente monótonas buzinas de automóveis à estatura de instrumentos musicais.
 
como um chacrinha erudito, buzinou o presidente, o sistema, os parlamentares, as reformas, e tudo o mais que apareceu pela frente. Era a apresentação da Sinfonia dos direitos, descendente da Sinfonia das Diretas, de 33 anos atrás, a primeira buzinada do maestro.
Havia até instrumentos —  incluindo uma tiorba, que é um alaúde crescidinho —  mas não era a música o que interessava ali. No lugar de libreto, um panfleto; palavras de ordem sem poesia ganharam uma sonoridade menos marcial —  e o maestro corria de um lado a outro do palco, regendo pessoas e automóveis.
 
A peça de 45 minutos tem o brilho de uma cantiga de roda. Construída sobre três notas, a sinfonia automotiva vale pela provocação —  um chato diria que os carros da Ford desafinaram; mas tudo correu bem, apesar da Fiorino que carregava um carrinho de pipoca ter o alarme disparado, provocando uma cacofonia fora da pauta.
 
Não foi um grande sucesso de audiência —  havia mais gente no palco e no estacionamento, onde estava o naipe de buzinadores, do que no gramado em frente ao abandonado teatro Plínio Marcos, atrás da Torre de TV. Houve também um público itinerante, entaramelado, que depois de comer um tacacá na feirinha se aproximava, observava e seguia em frente. O importante foi a movimentação.
O maestro sempre bagunçou o coreto. Construiu um violino colando mais de 1.700 palitos de fósforos, enxergou cores no preto e branco do pentagrama, criou o grupo de música experimental da UnB, pôs galinhas para cantar ópera, propôs um novo Hino nacional, com letra de Reynaldo Jardim (“Nossa pátria é você/ Minha pátria sou eu”).
 
E passou boa parte da vida se dedicando a tirar música da eletricidade, deixando o violino e abraçando um theremin —  espécie de avô dos sintetizadores —  de produção própria. A digestão não é fácil; a música de Antunes traz uma mistura de loops, silêncios, reverberações e estranhezas —  rompe com os padrões canônicos de melodia, harmonia e ritmo. É tão vanguarda que, mesmo composta há décadas —  caso do disco Música eletrônica, lançado em 1975 —  ainda soa futurista (ouça no YouTube).
 
Na apresentação da Sinfonia dos direitos, no entanto, o flerte era com o passado —  e já a partir da abertura, com a venezuelana Damelis Castillo cantando a chilena Violeta Parra —  Volver a los 17 —  e pregando a união dos povos andinos, amazônicos e caribenhos. Mas o povo não sabia a letra; era melhor cantar caminhando e cantando e seguindo a canção.
 
A única coisa que desafinou num concerto destinado a destronar o presidente é que entre os carros estacionados próximo ao palco havia um coberto de camisetas e bandeiras —  numa delas, colorida de azul e vermelho, abaixo da inscrição “Dilma presidente”, trazia: “Vice Michel Temer”.

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