Brasília-DF,
18/NOV/2017

Crônica da semana: Drama na noite

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Publicação:09/06/2017 06:00
 
Dizem que Deus ajuda a quem cedo madruga, mas, por experiência própria, posso garantir que ele também não abandona quem dorme tarde. A madrugada da segunda-feira já tinha sido rompida e só os recalcitrantes ainda ocupavam cadeiras no bar —  às quais se agarravam para que não fossem recolhidas naquela velocidade de fim de expediente.
 
Os músicos amadores e profissionais que se reúnem todos os domingos já tinham quase todos se recolhido para alívio do Milton, que, mesmo aposentado, fica preocupado com o PIB nacional —  “esse pessoal não vai trabalhar amanhã”, reclama. Restaram o violão do Otávio e o bandolim do Raul. Era o suficiente para a noite seguir em frente.
 
A música era boa —  há uma cumplicidade rara entre o coronel da reserva e o informático, que só se encontram —  quando tanto —  duas vezes por semana; às quartas, com a Turma do Gambá, agora em novo teto, na galeteria Beira Lago, ao lado do Pier 21, e aos domingos, no Grao, boteco do Lago Norte.
 
Raul estudou em Conservatório, na Bahia, Otávio aperfeiçoou-se nas serestas de rua em São João del Rey. Tão diferentes, se entendem perfeitamente na música.
 
A turma que ficou estava embevecida com a música que, baixinha, ocupava todo o recinto. Nem aqueles que beberam além do recomendado e falavam com volume de lavadeira incomodavam. Foi quando se aproximou Fernando Lopes e sentou-se com os dois.
 
Fernando é cantor das primeiras noites de Brasília, frequentou o Catetinho, onde interpretava boleros e tangos para afastar a solidão das noites do ermo. Era uma época diferente, em que o presidente da República também recebia visitas na calada da noite, mas só para ouvir música, dançar e... sabe-se lá o que. Bons tempos.
 
E Fernando Lopes via o presidente dançando muitas vezes, mas nunca contou com quem; donde se conclui que, com ele, não adianta premiar delação. Sabe guardar segredo.
 
Os cabelos são inteiramente brancos, mas a voz está intacta. Se no passado ele não se separava de um caderninho meio seboso com centenas de letras de músicas e respectivas tonalidades, ele agora tem um tablet onde armazena as canções. O tempo passa, mas parece que é só para os outros.
 
E neste dia ele decidiu que mostraria que não canta apenas boleros. Pediu um sol menor e começou: “No dia em que nascemos e vivemos para o mundo, nos falta uma costela que encontramos num segundo....” —  era Mia Gioconda, canção de Vicente Celestino, operística, própria para a voz de tenor de Fernando que, sem microfone, espiava o tablet para não errar o trecho em italiano.
 
A música conta a história de um pracinha brasileiro que, enquanto guerreava na Itália, conheceu e se apaixonou por uma mocinha. Como é Celestino, todos sabem que acaba mal, na beira do cais. E Fernando Lopes nem se importava que só estávamos nós, gatos pingados, ali. Ofereceu drama à canção, que saiu perfeita, mesmo sem ensaio —  nada além do tom. Outras canções vieram, tão boas quanto, igualmente surpreendentes. Tivemos todos uma semana mais leve.
 

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