Brasília-DF,
17/NOV/2017

Crônica da semana: Dos tempos do ronca

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Paulo Pestana Publicação:14/07/2017 06:00
Não há conversa irrelevante no bar. Assim é que, quando alguém disse que há tempos não tomava um Ferro Quina, a moçada de cabelos brancos —  se tanto; muitos nem sãs conservaram — se alvoroçou. A primeira preocupação era saber se ainda era fabricado o aperitivo, mas no instante seguinte, as reminiscências tomaram conta do ambiente.

tinha fama de bebida saudável, talvez pelo nome de remédio —  Ferro Cálcio Quina —  que buscava traduzir as propriedades da beberagem, numa receita que remonta à Idade Média. Mas não tinha glamour, até porque nunca se ouviu um galã ou um vilão de cinema pedir ao rapaz do bar uma dose de Ferro Quina; ainda assim reinava nos botequins brasileiros.
 
Alguém logo lembrou das —  provavelmente falsas —  propriedades medicinais da cangibrina, mas que, no mínimo, serviam como boa desculpa, afinal, era praticamente um tratamento para a saúde. O amargor da bebida reforçava a crença nas promessas curativas ou, no mínimo, fortificantes — era, assim, um Biotônico Fontoura para adultos.
 
A Ferro Quina Trentini era a mais popular, presença garantida nas prateleiras dos botecos desde os tempos do ronca. Segundo se acreditava, era uma receita que a família Trentini criou —  por volta de 1800 —  e trouxe da Itália, onde era vendida numa cantina de Mezzolombardo, ainda hoje uma pequena comunidade perto de Trento.
 
Pouco antes da Segunda Guerra Mundial, a fabricação foi interrompida e retomada no Brasil, em 1940. A Ferro Quina não era um vermute, vinho tinto licoroso que, preparado com uma infusão de ervas amargas e aromáticas, rompia a doçura natural da uva. Mas era um vermute especial, de sabor único.

Há uma dezena de assemelhados no mercado, mas que não matam a sede dos saudosistas; nem mesmo o mais tradicional deles, o Campari. Na prateleira dos melhores supermercados —  e dos piores também —  há muitos rótulos, cada um com seu encanto.
 
A Ferro Quina Trentini podia ser tomada pura —  diríamos hoje que harmonizava com copos de cerveja e azeitoninhas verdes em conserva —, mas era o vermute favorito do rabo-de-galo, drinque que havia perdido o seu lugar no panteão dos coquetéis, mas que começa a ser recuperado por jovens barmens.
 
Chamar rabo-de-galo de coquetel pode parecer um exagero, diante dos Manhattan temperados com gotas de Angostura e dos Grey Goose Le Fizz. Afinal, é uma mistura simples de pinga com vermute — e que surgiu para disfarçar o sabor de cabo-de-guarda-chuva das cachaças de má qualidade servidas nas biroscas.
 
Mas é preciso ressaltar que nenhum drinque mereceria mais ser chamado de coquetel, afinal, cock tail nada mais é que a tradução literal de rabo-de-galo. O nome —  nada como uma cultura inútil —  surgiu nas rinhas da região do Mississipi, onde os apostadores de briga de galos mexiam seus drinques com uma pena retirada do rabo do galináceo vencedor.
 
Enfim, temos que nos virar sem Ferro Quina Trentini, mas sem abdicar do rabo-de-galo. Com um copo martelinho, misture partes iguais de pinga (boa) e vermute ou vinho quinado. Deve ser tomado de um gole só —  não falei que é meio remédio?

Tags: crônica

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