Brasília-DF,
23/OUT/2017

Crônica da semana: Solidariedade é isso

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Paulo Pestana Publicação:21/07/2017 06:00

“Engana-se quem acha que a maioria vai ao boteco por causa de um traçado, uma pinga; o grande ativo de um boteco, diriam os economistas, são os próprios frequentadores”

Nunca aceitei fazer parte de corpo de jurados para determinar qual o melhor boteco, qual o melhor petisco, o melhor drinque, essas coisas. Primeiro, porque nunca fui convidado, mas também porque acho uma perda de tempo ficar dando medalha para qualquer coisa na vida, como se estivéssemos numa eterna e insalubre competição.

Boteco tem tantas variáveis que não merece estar em julgamento —  exceto o da saúde pública, naturalmente, mas com fiscais menos ávidos. Quem é capaz de julgar se um bar é bom ou ruim? Não há, por exemplo, uma boa bodega no mundo em que o dono pareça feliz, seja bem-humorado. Parece ser condição pétrea, a rabugice do bodegueiro.
 
É assim que ele enfrenta o pinguço, o pedinte e até o assaltante. Pena que alguns deles achem que os fregueses bacanas —  como nós, modéstias às favas —  também cabem no mau humor deles e merecem patadas. Mas mesmo esses botequins conservam seu charme, seu it, como se dizia antigamente.
 
E se tem alguma coisa que todo frequentador contumaz de bar gosta de falar é de... bar. Compreende-se: para muitos, é como um porto seguro, uma segunda casa; para alguns chega a ser a primeira. E engana-se quem acha que a maioria vai ao boteco por causa de um traçado, uma pinga; o grande ativo de um boteco, diriam os economistas, são os próprios frequentadores.
 
Era essa a conversa que tomava conta daquele ambiente simples, cadeiras e mesas de plástico e um toldo furado e apoiado por uma estrutura meio bamba, no SIA. “Vocês acham que eu venho aqui por causa do conforto? Ou por causa da gentileza do atendimento?”, perguntou um, emendando uma resposta: “Venho por causa de vocês”.
 
É verdade. Com tanto barzinho chique, de cadeiras ergonomicamente projetadas para que o sujeito fique o maior tempo possível no lugar, consumindo; ainda tem banheiros limpos, menus de cervejas, cozinhas impecáveis. E por que vamos ali, naquele moquiço, toda semana?
Com carros passando perto, jogando fumaça, catador de latinha entrando no meio da conversa (nada contra, mas o folgado insistia em querer nos convencer a trocar a garrafa de cerveja por latas), gente pedindo para inteirar passagem, o dono gritando com todo mundo e dando um passa-fora no menino que só queria vender um amendoim quentinho.
 
Foi quando alguém deu por falta de um dos chapas, justamente o mais velho. Ninguém sabia, não se falara com ele naquele dia e começou a preocupação. “Será que aconteceu alguma coisa?”, perguntavam. “Não, notícia ruim corre depressa”, respondia um mais otimista. Celulares entraram em ação, mas não houve resposta.
 
A especulação continuou: “Deve ter ido pescar”, arriscou um, sem a menor certeza. “De jeito nenhum, não me falou nada e eu sempre empresto umas iscas para ele”, intercedeu alguém. “Falei com ele anteontem, estava tudo bem”; “será que não viajou”, “para quem mais a gente pode ligar?”, “Eu sinto que não aconteceu nada de mal” —  as frases solidárias se misturavam na mesa, quando, de repente, restabeleceu-se a normalidade.
 
O velhinho chegou —  e todos brindaram.


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