Brasília-DF,
17/OUT/2017

Crônica da semana: O carrão inútil

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Paulo Pestana Publicação:18/08/2017 06:00
Ele chegou a Brasília ainda de calças curtas, acompanhando a família. Foi uma vida sem muitas dificuldades financeiras, mas sem desperdícios; o pai, entre tantas outras coisas, ensinou o valor da poupança e a evitar desperdícios. Chegava ao cúmulo: certa vez, ao ver que ninguém mais usava a piscina da casa, conseguiu uns alevinos e passou a criar peixes no quintal —  quem resiste a um pescado fresquinho?
 
E ele passou a vida seguindo os passos do pai, economizando todos os tostões, tentando passar para as duas filhas o valor do dinheiro. Nunca foi exatamente um pão-duro e se permite alguns luxos. Apreciador de bons vinhos, porém, nunca se excedeu; procura as ofertas e sorve o líquido da taça com parcimônia.
Mas os anos foram se passando e agora, perto dos 50, achou que podia fazer uma extravagância. Viu um anúncio no jornal e resolveu comprar um carro zero quilômetro. Não um carro qualquer: um Mercedes-Benz, objeto oculto de desejo desde jovem e que ele havia reprimido.
 
Foi à loja e depois de saber tudo sobre o mercedinha, fechou negócio. Contrato assinado, fez um pedido: queria que desligasse o painel de led —  “gasta muita energia, fio”, disse, sem dar atenção ao rapaz que tentava dizer que a energia era produzida pelo próprio veículo enquanto andava. “Gasta bateria, fio”, insistia.
 
Mas ele queria mais. Pediu para desligar o controle de tração na aceleração, o brake drying com função hold, que praticamente desliga o carro quando parado no sinal de trânsito e o assistente de partida na subida (HSA). São itens de tecnologia de ponta, que devem ter custado horas de estudo e neurônios dos engenheiros alemães que criaram o carro. Não quis saber: “Isso atrapalha. E se não ligar de novo?”, perguntava, cheio de razão.
 
Virou atração na concessionária. Enquanto pedia para retirar os acessórios, outros vendedores e até mecânicos se aproximavam curiosos para conhecer o homem que tentava transformar um carrão numa carroça. Não teve jeito. Saiu com um monte de itens desligados e assim está até hoje, quando exibe o carrão.
 
Ficou tão apaixonado que passou a ir à academia, ao lado da casa dele, de carro. Até que a mulher descobriu.
 
—  O carro fica na garagem. Vai a pé, como sempre.
Foi quando me perguntou: “De que vale ter um mercedinha se não posso mostrar para as gatas?”
Mudando de assunto...
 
Dia desses escrevi aqui sobre a Quituart, espaço gastronômico do Lago Norte cheio de opções para gurmês e glutões, e citei algumas preferências. Mexi em vespeiro. Leitores se manifestaram apontando pratos que não foram citados e até omissões. A mais grave, sem dúvida, foi a ausência do Sabor Mar, box que, como o nome anuncia, serve preferencialmente frutos do mar. Rui Nascimento chegou a lembrar da moqueca de robalo com camarões servida ali, no que tem toda razão. A nota triste é o iminente fechamento do Barcelona, box de cozinha mediterrânea. O chef Zey não quer mais saber do frio de Brasília e vai para a Suíça.

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