Brasília-DF,
21/OUT/2017

Crônica da semana: Falando com mortos

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Paulo Pestana Publicação:25/08/2017 06:04
Acho que agora não falta mais nada mesmo: estamos falando com mortos. Há empresas se especializando em criar perfis de personalidades finadas para as redes sociais e ninguém pode se espantar se receber um torpedo do Muhammad Ali ou um like da Marilyn Monroe. Ou até uma saudação do Elvis Presley — se bem que no caso dele há dúvidas se está mesmo morto ou vivendo como chupa-cabra num cantão mexicano.
 
Mortos faturam. O campeão —  ou melhor, octacampeão —  é Michael Jackson, que só no ano passado fez mais de R$ 2,7 bilhões. Em um distante segundo lugar ficou o cartunista Charles M. Schultz, o pai do Charlie Brown, com apenas R$ 156 milhões, deixando o golfista Arnold Palmer em terceiro, com R$ 130 milhões.
 
Até aí, tudo certo. Há um culto macabro social que exerce estranha e poderosa atração entre os vivos, seja por saudosismo ou pelo valor da obra deixada; periodicamente lembra-se do aniversário de morte de um famoso —  semana passada mesmo houve uma parada em homenagem a Raul Seixas aqui na cidade. Mas daí a ter um nome registrado na internet vai uma diferença bem razoável.
 
A obra de um morto não se renova. O máximo que se fazia até agora era revirar o baú de quinquilharias desprezadas durante a vida, colher um ou outro aspecto diferente —  a carreira póstuma de escritor de Renato Russo, por exemplo —  ou manter monumentos (foram gastos quase R$ 500 milhões para reformar Graceland, a casa de Elvis, há pouco tempo).
 
Mas é certo que, com o desenvolvimento das artes gráficas nos computadores, não vai demorar muito tempo para que se possa ver um filme com Teda Bara contracenando com Steve McQuinn, ou qualquer maluquice semelhante. Daí os direitos de imagem dos artistas vão valer ainda mais. Mas ainda assim ficamos no reino da ficção.
 
A loura Marilyn Monroe saiu na frente e já tem uma conta reconhecida no twitter. Ou seja: é ela, não um perfil falso. E o que diria uma mensagem da moça? Não que ela alguma vez tivesse algo a dizer que valesse mais do que os 140 toques regulamentares, mas faria alguma recomendação? Indicaria algum produto? Se é comércio, vamos inverter: você compraria um perfume que fosse indicado pela Marilyn do além?
 
No bar, a polêmica está pronta e já há quem se assanhe só com a possibilidade de ver o nome de Marilyn Monroe numa mensagem, mesmo que não seja psicografada e, ao contrário, produzida por alguém muito vivo. E a atriz, para muitos a inventora do mito da loura burra, virou o assunto da tarde.
 
Para o júri improvisado o melhor filme foi Quanto mais quente, melhor, vencedor por um voto de O pecado mora ao lado, que tem a cena lembrada por todos: o vento da tubulação do metrô levantando a saia da atriz. A conversa rendeu até que um gaiato olhou no Google e acabou com a festa:
— Quero avisar a quem receber o twitter da Marilyn Monroe que ela fez 91 anos em junho.

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