Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica da semana: Talentos da cidade

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Paulo Pestana Publicação:01/09/2017 06:03
“Era tempo de amadores, no sentido dos apaixonados pelo que fazem.”
Era o tempo da televisão ao vivo. Nenhuma das emissoras instaladas em Brasília tinha a geringonça que gravava imagens e, assim, as atrações que divertiam os funcionários públicos recém-chegados só sobrevivem na memória de quem participou daquela aventura.
ainda não havia o conceito de rede; cada emissora produzia o próprio conteúdo e foi deste modo que Brasília ganhou seus programas de auditório, com apresentadores, cenários e atrações locais.
 
Era um espaço generoso e gente comum foi transformada em astro, criando uma geração de artistas que, fora do expediente, trazia entretenimento para as famílias que ocupavam a nova capital. Um desses artistas foi Ciro Anédio, motorista de ministério que também atuava como cantor, mas que não deixou qualquer registro. Havia também Marlene Ziriguidum, também cantora, moradora do Paranoá, que sumiu sem deixar pistas.
 
Dezenas de outras pessoas comuns passaram pelas câmeras do Talento 70, programa que era exibido aos sábados, com quatro horas de duração, apresentado por Fernando Lopes —  esse já um artista consagrado, que atuava também na Rádio Nacional, conhecido pelos epítetos “sorriso que canta” e “cantor sorriso”. Poucas fotos contam essa história; não há registro em filme. E olha que o programa ficou sete anos no ar —  de 1968 a 1975.
 
Era tempo de amadores, no sentido dos apaixonados pelo que fazem. Fernando Lopes não apenas apresentava o programa —  que também mostrava artistas do disco que passavam por Brasília para algum espetáculo —, mas selecionava pessoalmente todos os convidados. E passava a semana frequentando bares, boates e festas onde pudesse extrair algum talento.
 
Brasília tinha, assim, uma atenção toda especial para seus artistas. E Fernando Lopes ouviu falar de um novo cantor, na verdade um enfermeiro do Hospital de Base, que cantava.
 
Ele viu o rapaz no programa do Titio Darlan —  hoje o renomado artista plástico Darlan Rosa, ele próprio uma atração à parte, pois desenhava com as duas mãos ao mesmo tempo —, exibido pela TV Brasília. O cantor era muito bom e no sábado seguinte já estava no palco do Talento 70; cantou Dindi, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, acompanhado pela afiada orquestra do maestro João Tomé.
 
O apresentador gostou tanto do número que já estava para renovar o convite para que o rapaz voltasse na semana seguinte, quando foi chamado nos bastidores pelo diretor da emissora, o sargento Antônio Maciel Pinheiro. Ele não havia gostado nem um pouco; não disse o porquê, mas o apresentador acredita que a voz de contralto e os trejeitos do enfermeiro possam ter influenciado o reto militar.
 
Mas existem as linhas tortas da história. Dois anos depois, Brasília recebia um show do mais recente fenômeno musical do país, o grupo Secos e Molhados. A informação chegou aos ouvidos do diligente sargento-diretor, que determinou a Fernando Lopes que fizesse a cobertura. Terminado o show —  gravado por um vídeo-tape emprestado pela Embaixada norte-americana —  o apresentador foi mostrar ao diretor:
“Sabe esse cantor aqui? É o mesmo que o senhor proibiu de voltar ao meu programa. O nome dele é Ney Matogrosso”.

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