Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica da semana: Curso para chatos

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Paulo Pestana Publicação:12/10/2017 17:00
A vida nos impõe desafios, até alguns que nos levam à tábua da beirada. Já voei em teco-teco durante tempestade sobre a selva amazônica, enfrentei a ira de chefe político com capangas armados nos grotões do vale do Jequitinhonha, separei briga de cachorro e até levei corrida da polícia quando assistia a um pega na rua do Caseb. Mas nada disso me preparou para enfrentar uma operadora de telemarketing.

Talvez seja a maior praga dos dias atuais. Maior que ouvir os insistentes apitos de grupos do WhatAapp com amigos aposentados (agora deram de trocar receitas!!), mais irritante que atendente que, depois de minutos esperando na fila, finalmente está te ouvindo, mas que pede um minutinho para falar com outro cliente que ligou pelo celular. Nada é tão irritante quanto a moça que tem a capacidade de fazer aquele pertinaz vendedor de seguros parecer a pessoa mais educada do mundo.

Há um curso para operador de telemarketing. Dias desses descobri que é uma capacitação profissional financiada pelo governo; ou seja: eu pago para aquela pessoa me importunar.

A conversa começa tentando te convencer de que você é um felizardo por receber aquela ligação. E isso vem bem antes de qualquer iniciativa de boa educação, como perguntar se você pode falar, se está ocupado, se tem alguém te esperando, coisas assim.

Fico imaginando como deve ser a primeira aula do curso. O professor chega e diz: “a partir de agora, vocês vão aprender um novo vocabulário, nova gramática, uma nova forma de se expressar. Vou estar oportunizando a todos a chave do convencimento pela contumácia” —  ninguém vai saber o que é contumácia, mas o culto à ignorância faz parte do treinamento, até porque não saberão o que significa metade das palavras que vão ler nos textos que nos importunarão. Guilherme Figueiredo, inocente, se ainda fosse vivo, teria que reescrever o seu Tratado dos Chatos.

O professor ensina misturar verbo, adjetivo, substantivo e o que mais vier pela frente, tudo no sentido de dar uma linguagem única, um léxico, a seus alunos, futuros inconvenientes. E aí vem o tópico principal da aula inaugural: “esqueçam o não”. Sim, para o operador de telemarketing, o “não” inexiste.
Trata-se de um advérbio finito em si próprio, definitivo. Mas essa regra só existe para nós. Do outro lado da linha, a moça nada ouve. A cada “não” surge uma nova frase e, importante, sem a partícula “mas” no início. É uma conjunção utilizada para dar a ideia de sequência da conversa, pois não? Talvez para você, para mim.

Se o operador de telemarketing utilizar o “mas”, terá consentido ter ouvido o “não”; e isso é contra as regras. Não adianta dizer “não, obrigado”, com toda a educação que mamãe deu; não adianta repetir. A vontade é bater o telefone na cara da moça, mas é uma grosseria de difícil execução. Minha tática é não responder. Ouço até o fim e digo um único, singelo e definitivo não, obrigado. E desligo. O problema é que ela liga de novo.

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