Brasília-DF,
21/NOV/2017

Crônica da semana: O exu caveira desceu

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Paulo Pestana Publicação:27/10/2017 06:00Atualização:26/10/2017 15:06
Quando a moça chegou, atraiu logo os olhares.  O bar estava cheio, o samba corria animado, mas o tropicão foi feio e ela saiu catando cavaco depois de encontrar um daqueles ganchos que seguram toldos e que fazem parte dos perigos diários que todos enfrentamos nas calçadas comerciais da cidade — qualquer cidade.
 
foi um daqueles instantes em que o mundo fica em câmera lenta. Até o bicheiro parou de mexer na maquininha eletrônica, que agora carrega a fé dos apostadores, para olhar. Mas há uma brigada de anjos da guarda que protege bêbados e crianças.
Ela não caiu. Ajeitou o cabelo, e parou no balcão, talvez em busca de alguma dignidade engarrafada. Tomou um trago. O samba de rua é como orquestra de gafieira ou trio de forró no sertão —  não para sob nenhuma hipótese, senão a confusão se generaliza. E toca mais alto.
 
O ambiente parecia ter voltado ao normal quando a moça atacou de novo, impulsionada por algum aditivo que certamente não vem em garrafas. Era o próprio exu caveira, rindo alto, determinado a bagunçar o coreto.
 
Corre a lenda que naquele bar —  assim como ocorre na maioria dos botequins —  vê-se almas, espíritos errantes, ectoplasmas amargurados e inconformados. Mas era a primeira vez que se via uma manifestação ao vivo, um poltergeist com aquele poder de destruição. Até então o desfile de penados acontecia minutos antes das portas de metal serem baixadas.
 
Ali mesmo alguns juraram ter encontrado antigos companheiros de copo e que, pelo jeito, mudaram-se para o andar de cima a contragosto, visto que mantiveram velhos hábitos. Estes também sumiram do bar. Estão vivos, mas perderam a coragem.
Quem trabalha no recinto não tem muita escolha; reza, bate na madeira, agarra o crucifixo, às vezes tudo de uma vez. Pior é quando as manifestações vão além das aparições; copos racham, garrafas caem das prateleiras, barulhos estranhos. O medo ajuda a imaginação, mas ninguém duvida.
 
Semana passada a turma deixou o noticiário da tevê de lado. A história narrada ao vivo era mais interessante que as roubalheiras do dia a dia. Ceará estava encarregado de fechar o bar naquela noite e por algum motivo a porta não desceu —  usou o ferro, bateu na barra, borrifou WD40, forçou; mas a porta continuou emperrada.
Do outro lado da rua estava uma figura parada, olhando fixamente para o bar e para o Ceará, que gelou, eriçando os poucos cabelos que lhe sobraram. Parecia um conhecido de todos, morto há três anos de ataque fulminante que voltara.
Ceará usou todos os conhecimentos passados pela mãe carola, acendeu uma vela e rezou. Quando abriu os olhos, não havia mais ninguém e a porta desceu barulhenta como sempre. Desde então, Ceará acende uma vela por dia para ver se o velho freguês sobe de vez.
 
Foi quando alguém comentou, olhando a moça barulhenta que voltara: “Eu pago outra vela para fazer essa pomba gira mudar de bar”.

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