Brasília-DF,
19/NOV/2017

Crônica da semana: A iguaria está salva

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Paulo Pestana Publicação:10/11/2017 06:00
Senti pequenas rugas se formando quando me disseram que o Armazém do Mineiro havia fechado. Não seria por falta de inimigos: o simpático boteco da 210 Norte enfrentou uma vizinhança pouco afeita à boemia com a galhardia dos intrépidos; os fiscais apareciam, acionavam aquele aparelhinho que mede decibéis e, pronto, o som estava acima do permitido pela lei — o detalhe é que não havia música no ambiente; era só conversa.

Mas fiscal não gosta de papo e não adiantava o Mineiro dizer que ele não tinha culpa do volume gutural dos clientes. Mais de uma vez ele implorou, pagou multa, mas teve que fechar o bar pedindo desculpas aos clientes.

Chegou a instalar uma cobertura removível de lona para abafar o som, mas não teve jeito. Na minha opinião, a culpa é da televisão, que estica cada vez mais os horários —  tanto que de algum tempo para cá a novela das oito começa às nove. O futebol é o que mais irritava os vizinhos, mesmo exibido sem o som, porque um gol aos 45 minutos do segundo tempo —  perto da meia-noite —  tinha a potência de um trovão. Fora os palavrões.

Enfim, quem chamava Brasília de cidade-dormitório tem razão. Estamos cada vez mais chatos, ensimesmados e taciturnos.

Mas a minha preocupação era com o Armazém do Mineiro, local de notívagas e acaloradas discussões que, inevitavelmente, acabavam com o pedido de outra saideira. Um desassossego, confesso, egoísta, embora sempre guarde luto quando qualquer bar fecha —  cada balcão encerra um capítulo da vida da cidade.

Ainda assim egoísta. De repente fiquei obsessivo: onde mais eu poderia comer um galopé? Até onde sei é o único bar da cidade que serve, com regularidade, a iguaria mineira que promove a impensável mistura pé de porco e galo bem cozidos, com uma profusão de temperinhos e legumes.

Água na boca, vocês sabem, entorpece os outros sentidos; atrapalha tudo. E foi assim, atarantado, que eu apelei: mandei mensagem para o poeta Climério Ferreira, frequentador dos bares da região, para ter notícia. O fato foi confirmado, mas veio acompanhado de um alento.

O Armazém do Mineiro realmente não existe mais. O Mineiro em si, escafedeu-se; mas deixou a família no lugar, que agora se chama Skina Real e —  juro que ouvi o soar de trombetas —  ainda serve o galopé e todos os quitutes do cardápio original. Menos mal.

De qualquer forma, o galopé estava salvo. Marina Silva, que mostra toda sua paciência servindo a clientela do bar No Grao, do Lago Norte —  talvez fruto de sua formação como enfermeira — foi desafiada a mostrar os dotes culinários que trouxe do Maranhão.

Ela terminou recentemente de fazer um curso de comida japonesa e nunca tinha ouvido falar de galopé, mas maranhense é povo de fibra, tempera forjada pela resiliência dos krikatis, gavião e Guajajara-Tenetehara, tribos que sobreviveram a séculos de opressão.

Galo e pé de porco comprados, data marcada, comensais selecionados, a iguaria foi servida. Não deixou nada a dever aos melhores galopés. Só falta pôr no cardápio permanente do bar.

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