Brasília-DF,
16/OUT/2018

Crônica da semana: A emoção do outro

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Paulo Pestana Publicação:17/11/2017 06:00Atualização:16/11/2017 15:15
O fundo musical é uma invenção dos infernos mas, reconheço, agrada a muita gente. Se nos elevadores foi substituído pelos monitores de tevê com informações irrelevantes — a última que vi era uma pesquisa mostrando que o brasileiro é o terceiro povo mais idiota do mundo —, continua valendo em bares e restaurantes, disputando espaço com o clangor dos talheres, vozes mal-educadas e o tilintar das joias das madames.

desta vez o músico não queria passar batido. Policial militar, canta e toca seu violãozinho nas noites de folga, aproveitando para completar o soldo e flertar com as moças. É dos bons, repertório amplo e capacidade de intuir o que a plateia —  que foi ao lugar muito mais para rever amigos diante de um copo —  quer ouvir. E provoca aquela comunhão sonora de acampamento, em volta da fogueira.
 
Conheço gente que parou de tocar violão em público depois de ouvir pela enésima vez para tocar Andança, bela canção mas que, convenhamos, provoca náusea quando o contracanto é mal arrumado. Certa vez Reco do Bandolim, craque no instrumento, ouviu um pedido para tocar Carinhoso, choro de Pixinguinha que deveria elevado à categoria de Hino Nacional Brasileiro. Olhando nos olhos do interlocutor abusou da cara de pau: “Não sei”.
 
Não era o caso do rapaz. Ele estava disposto a agradar e ia de Djavan a Eagles sem escalas, conseguindo a cumplicidade de boa parte dos frequentadores do local. E, é claro, tocou Andança (“Já me fiz a guerra (me leva amor), por não saber /Que esta terra encerra (amor), meu bem-querer”) e só não tocou Carinhoso porque ninguém pediu.
Foi quando olhou para o lado e viu Fernando Lopes. Cantor dos primeiros dias da nova capital, primeiro artista contratado pela incipiente Rádio Nacional, fez inúmeras serestas com JK e, aos 85 anos, mantém o vozeirão de tenor intacto. O artista da noite insistiu para que ele desse uma palhinha; entregou-lhe o microfone.
 
Ele estava numa mesa com várias pessoas, inclusive um casal que só agora está mais integrado à turma e o veria cantar pela primeira vez. Dois boleros se passaram, o veterano cantor foi aplaudido de pé e começou a saideira em sol maior: Tortura de amor, música de Waldick Soriano (“Hoje que a noite está calma /E que minh’alma esperava por ti”), gravada por dezenas de artistas de todos os calibres.

Fernando Lopes é um homem à moda antiga —   usa cravo na
lapela, perfume Lancaster e deita o paletó sobre poças d’água para uma mulher passar. E canta à moda antiga, naquele estilo rasgado, soltando o dó de peito, interpretando as letras. Naquela noite ele esgarçou a voz, chorou, soluçou. Emoção em estado bruto.
 
O jovem casal chorou com ele. Até que, depois dos aplausos, ele voltou lépido e fagueiro, esbanjando sorrisos. O casal estranhou. Há pouco ele estava para morrer no palco; eles próprios ainda tinham os olhos marejados. “Ficamos preocupados com o senhor”, disseram. Ele respondeu, abrindo ainda mais o sorriso: “Não fiquem. Aquele que estava no palco era outro”.

“Fernando Lopes é um homem à moda antiga —   usa cravo na lapela, perfume Lancaster e deita o paletó sobre poças d’água para uma mulher passar”

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