Brasília-DF,
22/JUL/2018

Crônica da semana: O clã musical

"Cientistas têm se dedicado a investigar a prevenção de doenças a partir do genoma de cada um de nós. Mais tarde talvez se interessem também em explicar como o talento é transmitido hereditariamente"

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Paulo Pestana Publicação:24/11/2017 06:00
Cientistas têm se dedicado a investigar a prevenção de doenças a partir do genoma de cada um de nós. Mais tarde talvez se interessem também em explicar como o talento é transmitido hereditariamente. E aí poderemos entender o que acontece na família Portilho.

a história do clã começa com José Portilho, um dos primeiros artistas radicados em Brasília. Chegou a ter um programa de televisão — Bossas de Ontem, Hoje e Amanhã — e cantava, ao vivo, composições próprias e sucessos do momento, acompanhado por um trio de deficientes visuais: João Tomé, Gilson e Walter.
 
Tinha um estilo todo pessoal; não se movimentava e mantinha a mão esquerda no bolso. O finado jornalista Ary Para-Raios — que depois criaria a trupe de teatro de rua Esquadrão da Vida — o apelidou de “a estátua cantante”.
 
Portilho já tinha abandonado a ribalta quando o filho, Remy, começou a tocar piano sem precisar de professor; mais tarde seria ouvido nos grupos Mel da Terra e Oficina Blues. Agora é a vez do neto Felipe, que está lançando o primeiro disco.
 
O patriarca Portilho diz que não nasceu para ser artista. Gosta de cantar, mas nunca foi chegado à vida noturna, não suportava a burocracia dos chefes e na primeira chance, ainda em 1967, largou tudo para se dedicar ao serviço público.
 
Poderia se tornar um cartaz nacional, como se dizia, em 1961. Ao se apresentar no programa de José Vasconcellos, o JV na TV, em São Paulo — o quadro chamava-se “o grande desconhecido” —, foi convidado para gravar um disco. Desistiu ao saber que teria que deixar Goiânia e abandonar o curso de Direito.
 
Brasília era mais perto; era possível conciliar carreira e estudos, ainda mais depois que conseguiu comprar uma Romi-Isetta, carrinho de três rodas e para apenas duas pessoas, que custou a fortuna de 62.500 cruzeiros (em 46 prestações).
 
Era dureza. Tempos depois, já com uma vemaguete, completava o orçamento ajudando um amigo a trazer frangos vivos para revender na capital. Também trazia manteiga, botina, qualquer mercadoria. O escambo virador rendeu até um piano, que ainda está na casa dele, depois que negociou o saldo de um aval com o gerente do banco.
Formado, Portilho se estabeleceu definitivamente na capital, onde está até hoje. Mas a carreira foi encerrada quando Duílio Costa, então diretor da Rádio Nacional, tentou fazer com que os cantores batessem ponto.
Nunca mais cantou em público — exceção para eventos que reuniam artistas pioneiros, promovidos por Jarbas Silva Marques, mas que o GDF prefere não fazer mais (sabe-se lá porquê). Também deu uma palinha numa apresentação do amigo e companheiro de microfone Fernando Lopes, no Feitiço Mineiro.
Não se arrepende de nada. E se diverte com passagens pitorescas, como no dia em que, pouco antes de entrar no ar, quebrou um dente. A sorte é que o diretor artístico da TV Nacional, Pedro Cruxen, era dentista e fez uma gambiarra.
Hoje Portilho torce pelo sucesso do filho e do neto. E, certamente, daqui a pouco, dos bisnetos. A genética não falha.

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