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18/OUT/2018

Crônica da semana: Doutor poeta

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Paulo Pestana Publicação:01/12/2017 06:00
Poesia tem uma mágica tão forte que pode nascer de um dedo decepado. Ou quase. Esta pelo menos é a história de João Bosco Marinho; melhor dizendo, Dr. Bosco, que podava uma mangueira com um serrote, quando tinha 62 anos — hoje tem 78 — e quase perdeu o dedo médio da mão esquerda, mas na recuperação descobriu talentos ocultos.

Dr. Bosco mora no Lago Norte. Aposentou-se da medicina e hoje bate ponto no bar do Luizão, mas conversa mais do que bica o copo de cerveja. Sempre foi um pensador: escrevia aforismos — entre 30 e 40 mil, calcula (“sou uma criança brincando de esconder no corpo de um velho”): — e sacadas (“aniversário é mais um ano que a vida rouba da gente”) e chegou a registrar alguns deles em livro.

Depois da cirurgia que devolveu o dedo ao lugar de origem, recomendou-se que comprasse uma bolinha de borracha para recuperar os movimentos, mas o pensador entrou em ação e ele preferiu realizar um sonho de criança: aprender a tocar violão. Comprou uma revistinha na banca e aprendeu as posições, lembrando as serenatas que fazia com os amigos em Santa Luzia do Sabugi, Paraíba, terra natal.

Recuperou o movimento dos dedos e não largou mais o violão, levado até para o consultório, onde cantava depois do expediente. Os aforismos foram substituídos por poesias e canções. Fez música até para Maria Sharapova, a tenista, musa involuntária. Antes, lembrou-se da infância difícil e fez um samba-canção: “Quando eu era menino/ que morava lá no mato/ Tomava banho de poço/ Com sabão de lavar prato/ Hoje de tudo me farto/ Tenho carinho e bom status/ Lembrança de muita saudade/ Dos meus tempos de maus tratos”.

Um dia alguém pediu para que ele cantasse uma música de sua terra, mas, como não tinha nenhuma, ele fez: “Vou voltar a ser criança, vou rever Santa Luzia/ Moradia da esperança, minha fonte de alegria/ ...Se eu por aqui não voltar, quando velhinho ficar/ Os sonhos meus voltarão, pra se deitar no teu chão/ Vou voltar a ser criança, vou rever Santa Luzia”.

Hoje poeta, antes médico, Dr. Bosco só não realizou o sonho de ser advogado, como almejou, ainda jovem, ouvindo grandes oradores fazendo sustentação oral nos tribunais que julgavam os arrepiantes crimes da época. Ele se encantava também com políticos de verve parnasiana que ouvia na Paraíba, especialmente Raimundo Asfora, que só encontrava rival em Alcides Carneiro.

Não importa. Realizou-se como médico, orgulho da mãe costureira e do pai caminhoneiro, que o apresentava, quando ainda estudante da Universidade Federal da Paraíba, como “meu filho, que é doutor”. Um dia protestou: “Ainda não me formei, não faça isso”. Ao amigo seguinte apresentou: “Meu filho, que é soldado da polícia”. Naqueles tempos, a polícia era temida e odiada no Nordeste.

Nada mal para um menino que chorou ao deixar seu lugar mas conserva o nome da cidade até no autoproclamado título nobiliárquico: Marquês de Sabugi. Ele canta: “Honrei meu nome/ Nessa história que vivi/ Pois meus caminhos/ Eu mesmo construí”.

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