Brasília-DF,
16/JUL/2018

Crônica da semana: A ficção na vida real

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Paulo Pestana Publicação:12/01/2018 06:00
Enfim, aposentado. Sebastião estava dispensado de repetir o ritual de décadas —  não precisava mais pôr o terno, apertar a gravata e seguir cedo para o trabalho de servidor público, em que fez a vida adulta entre carimbos, processos e documentos, preocupado em prover a família de quatro filhos. Teria todo o tempo do mundo para cuidar do jardim e escrever as histórias criadas nos curtos momentos de folga, mas que não conseguia pôr no papel. Começou arrumando pequenos trechos escritos, revisando nomes e organizando os fatos que iriam evoluir para o primeiro romance, já publicado.
 
É preciso acrescentar que onde estiver, ele vai acompanhado de alfarrábios amarfanhados e quase sempre colocados sob o sovaco direito, em uma pastinha de plástico. Até no boteco. Não se sabe o que há ali, mas os amigos especulam que o cuidado dedicado àqueles papéis só pode significar que é onde ele carrega o que tem de mais precioso: ideias.
 
E muitos dos companheiros de mesa acreditam que ali há uma verdadeira biblioteca em formação, tantas são as ideias anotadas, revisadas, riscadas, corrigidas e descartadas que esperam por uma prosa. No bar não há muito espaço para falar de literatura, mas é preciso respirar e Sebastião Pereira Lara, como todos nós, busca ar fresco.
 
Ele chegou muito jovem a Brasília, vindo de Minas, onde atuou no rádio e no teatro. Aqui, assumiu integralmente a identidade de bancário, fez carreira, ocupou cargos importantes, criou os filhos e, principalmente, fez amigos. Mas ninguém desconfiava de que, por trás do jeito pacato, a cabeça fervilhava; e que, muito menos, Lara tinha tanta história para contar.
 
Mas ele nunca poderia imaginar que a vida de aposentado não é fácil, que o tal ócio criativo defendido por De Masi é muito bom na teoria, mas, na prática, tem seus entraves. E assim, as flores do jardim vão bem, estão viçosas, coloridas; mas os livros estão emperrados.
 
É tanta ocupação que ele não sabia que tinha, tanta obrigação que apareceu, que não sobra tempo para sentar e escrever sem que alguém lhe peça alguma coisa. Todos os aposentados do bar sabem muito bem como é a ladainha.
 
—  Por favor, pegue aquilo; vá ao supermercado; preciso que busque um remédio na farmácia; acompanhe o rapaz que veio lavar a caixa d’água, já viu a vela do filtro, tem que apertar o parafuso do armário, ainda não foi ao banco?
 
O primeiro livro foi muito bem; é um romance ficcional, uma história de redenção cheia de aventuras e percalços, que começa e termina na selva amazônica e que tem a rara qualidade de prender o leitor. Chama-se O homem do 1303 — Uma luz que se apaga.
 
Lara tem mais dois romances iniciados, mas os afazeres da realidade não respeitam a ficção e vai aos poucos dando forma aos textos que escreve ao mesmo tempo. O sonho dele é passar uma temporada em Caldas Novas, onde espera deixar a vida dura de aposentado e voltar a escrever.

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