Brasília-DF,
23/ABR/2018

Crônica: Pensando em nada

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Paulo Pestana Publicação:26/01/2018 06:00
A única individualidade que nos sobrou foi o pensamento. Mas não por muito tempo. Cientistas anunciaram que estão desenvolvendo uma máquina capaz de ler os juízos a partir da reação do cérebro diante de algumas frases; mais um pouco os robôs vão escanear os miolos da gente e interpretar o pensamento.

Naquela tarde, ele estava mais excitado que o normal. Interessado em assuntos do futuro —  e isso vai desde o planeta Mongo nas aventuras de Flash Gordon até a saga de Guerra nas estrelas —  Bana defende que não existe essa coisa de ficção científica; segundo ele, tudo o que está nos livros e nos filmes, mais cedo ou mais tarde, vai ser parte da vida de todos nós.
 
E é quem, vez por outra, ilustra a mesa do bar com os casos mais escabrosos, uma vez que a futurologia está quase sempre ligada ao terror, no mínimo a alguma ameaça. Bana é carioca —  o apelido é a metade posterior de Copacabana —  e está aposentado; ex-bancário, agora vive em sebos buscando livros antigos com previsões científicas para o futuro.
 
Ele quer comprovar a teoria de que tudo será possível. Mas, desta vez, ele estava obcecado com a notícia da leitura do pensamento. Um cinéfilo da mesa lembrou do filme com Mel Gibson que, depois de um acidente, passou a ler os pensamentos das mulheres; há mais filmes com o tema, inclusive alguns bem ruins, como Crimes premeditados, mas para o Bana tudo isso é bobagem.
 
Pacientemente, ele explicava como funcionam os métodos que a ciência está desenvolvendo para romper mais essa barreira. E que isso vai facilitar a vida de pessoas que hoje estão paralisadas e serão capazes de se comunicar com aparelhos por meio de eletrodos fixados na cabeça e que vão funcionar como um bluetooth de aparelho de som.
 
Bana ia misturando os exemplos de coisas boas que virão com a liberação do cérebro, da esperança dos cientistas em transformar o ser humano a partir dessa experiência —  será possível implantar memórias que podem aniquilar as neuroses e outras psicoses, por exemplo. Também haverá como influenciar o comportamento das pessoas.
 
De um canto da mesa, Faixa observava a reação positiva de todos e os elogios ao progresso, ao mundo perfeito, ao ser humano sem defeitos —  ou, no mínimo, recondicionado como se fosse um motor de Gordini —  até que falou: “O Santos Dumont se suicidou porque usaram a invenção dele para jogar umas bombinhas”.
 
Certamente, o professor Wolney Garrafa poderia explicar melhor as implicações éticas do uso de uma máquina dessas. Mas o Faixa foi bem didático quando alertou para o que seria ainda mais grave quando começassem a ler pensamentos —  “vai acabar a mentira, o mundo não sobrevive com tanta sinceridade, vai ser um morticínio”.
 
“Imagina chegar em casa sem poder inventar uma desculpa para o atraso. Meu casamento não sobrevive. Nem o de vocês”, disse, partindo para a acusação.


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