Brasília-DF,
25/SET/2018

Crônica: O saudoso de si

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Paulo Pestana Publicação:09/03/2018 06:00Atualização:08/03/2018 18:20
Tem aquele que responde tudo com detalhes —  até um singelo “como vai?”. Tem também o comentarista, com posições definitivas sobre qualquer assunto. E o chato, que tenta mostrar intimidade de velhos amigos. A galeria de personagens do botequim é ampla; nem Chico Anysio conseguiu interpretar uma população tão grande, tão diversa.

Nem todos são insuportáveis; aliás, nenhum é. O bar é assim mesmo, um bom lugar para observar a condição humana em todos os seus matizes de personalidade. É preciso certa dose de tolerância e bom humor, um ensinamento para a vida. Mas tem dia que a gente quer mesmo é sossego, ficar observando as pedrinhas de gelo derreterem no uísque, conversar com as formigas lava-pés que zanzam atrás de migalhas e observar o que está acontecendo ao redor, enquanto a tardinha cai. Mas o capeta, quando não vem, manda despachante. É a única explicação para ver, descendo do carro, o egocêntrico-saudoso-de-si-mesmo. Andava sumido, mas a chegada desse personagem é o pior que pode acontecer para quem quer alguns minutinhos de paz.
 
Anda devagar, tem aquele peito de pombo, estufado, e olha por cima dos óculos. Cumprimenta apenas com um meneio de cabeça —  a impressão é de que ele não se lembra do nome de ninguém —  e começa a falar sobre seu assunto favorito: ele mesmo. Foi sujeito de algum destaque no passado; hoje está recolhido, aposentado compulsoriamente e periodicamente, atualiza sua autobiografia. A paz já tinha ido embora; sorte é que outros camaradas acudiram e se aproximaram. Não chega a ser um discolo, mas reage quando o assunto não é ele. Detesta, por exemplo, quando alguém comenta sobre a morte de um amigo comum; certa noite, o morto estava a merecer todas as nossas homenagens, quando ele reagiu, inconformado. Quase desejou ser ele próprio o morto tão enaltecido. Mas deu seu jeito: passou a contar sobre sua relação com o finado —  onde, claro, era ele o ator principal.
 
A saudade do próprio passado fica evidente diante dos sabidos —  embora ele não saiba que nós sabemos — fracassos amorosos recentes. O entono ainda em forma e exacerbado não deixa que admita essa fragilidade; prefere contar sobre conquistas passadas, nominando as moças, inclusive, imperdoável grossura naquela mesa de senhores que se julgam cavalheiros, embora narrem cafajestadas cabeludas —  mantendo o anonimato das parceiras, acreditando que é o suficiente para preservar a fidalguice.
 
Mas narrativas sobre estrepolias sexuais são raridade. Depois que o sujeito vai ao Detran buscar cartão para estacionar na vaga de idoso, a tendência é achar que pentear os cabelos é uma grande vantagem (e faz mesmo inveja a calvos amigos). Fazer xixi sem deixar pingar na cueca, então, é proeza. O saudoso-do-próprio-passado não dispensa um tema sequer que possa ser narrado na primeira pessoa do singular. Naquela noite, especialmente, estava com a corda toda, parecia o Forrest Gump do filme, que estava em todos os momentos importantes da história do mundo.
 
Nesse dia deixou escapar que sentia inveja de nós, outros. Por não ter um amigo como ele.

Tags: crônica

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