Brasília-DF,
25/ABR/2018

Crônica da semana: Outra língua

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Paulo Pestana Publicação:23/03/2018 06:00
—  Vocês entregam em casa?
—  Não, mas tem delivery.

O diálogo terminou por aí. Preferi desligar o telefone, pegar o carro e ir comer em algum lugar que me entendessem em português. Medo de levar cat (gato) por hare (lebre).

lembro sempre a história de um amigo que fazia um giro pela Europa, quando deu vontade de comer um franguinho; sentou-se no restaurante parisiense e, num acesso de humildade, perguntou à namorada como é que se diz frango em francês.

Ela também não sabia e, antes mesmo que pegasse o dicionário, ele encontrou no cardápio o que imaginava ser o prato desejado: “Está aqui: galette, galeto, claro”. A moça, mais inteligente e precavida que ele, ainda ponderou: “Não é melhor perguntar?”

Homem que é homem não pergunta nada diante da namorada. Nem no posto Ipiranga. É senhor da situação, comportamento que vem desde o tempo das cavernas, enquanto arrepelavam as moças.

No final da teimosia, ele, em vez do galeto imaginado, teve que se contentar com uma panqueca, a tal galette. Estamos vivendo a era da extinção da língua portuguesa. Não bastassem as letras dos funks cariocas, a gramática das músicas sertanejas e as entrevistas do Tite, é só olhar as placas, anúncios, programas de tevê; está tudo em inglês — ou quase.
 
Em parte, a culpa é da informática, que trouxe um monte de palavras novas para o vocabulário: deletar em vez de apagar, atachar no lugar de anexar, backup (já com versão brasileira, becape) para substituir cópia.

Tablet já foi tablete, o mesmo que uma drágea, comprimido. Hoje é um gadget (em português, engenhoca). Ou seja, um equipamento que poderia ser conhecido por tabuleta se ainda falássemos português.

Aliás, no caso de gadget, a língua inglesa também importou a palavra do francês, gachette, o que mostra que línguas não devem ser imutáveis. O que incomoda é o exagero de chamar mascote de pet, assédio de bullying e tigela de bowl.

Pior ainda é quando as palavras ganham nova grafia, mas não mudam o significado original. Ranquear, por exemplo, vem de ranking; mas ninguém explica porque não substituir por classificar. Ou ranking é melhor do que classificação?

As empresas não demitem mais ninguém, fazem downsize, que é redução de tamanho; também não fazem mais treinamento, substituído por coaching, assim como as reuniões estratégicas passaram a ser conhecidas como brainstorming —  tempestade cerebral.

No Brasil também não temos emissoras de notícias no rádio e na tevê: é Globonews, Bandnews, Recordnews, Jovem Pan News. A gente quase se esquece de que News é o mesmo que notícia. Daí, em vez de falar que estamos diante de uma epidemia de boatos ou mesmo do autoexplicativo notícias falsas, preferimos fazer coro com Trump: são fake news. Pelo menos ninguém mais chama locutor de espíquer (speaker).

Não surpreende que em Ouro Fino, a cidade onde o Chico Mineiro da música passou a noite numa festa do Divino, tenha um hotel chamado Slim Gold.

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